A Repetição é um dos conceitos principais que aparece em Freud, quando este elabora sua segunda teorização do aparelho psíquico, introduzindo a Pulsão de Morte.
Em 1914, em “Recordar, Repetir e Elaborar”, Freud começa a conceituar o conceito de Repetição, pois descobre que há um limite para a rememoração e os pacientes colocam cada vez mais em ato, na sua vida todo tipo de coisas.
Freud descobre que o que não pode ser rememorado retorna de outra forma, por meio da Repetição, algo se repete na vida do sujeito, sem que ele o perceba.
“O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o pela atuação, isto é, atua-o. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação, repete-o sem, naturalmente, saber o que está repetindo.”
A Repetição dá acesso à compreensão das condutas de fracasso, dos argumentos repetitivos aos quais estão presos os sujeitos e que lhes dão a sensação de serem joguetes nas mãos de um destino perverso. Em seu texto de 1916 – “Alguns tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico” no capítulo II, fala dos “Arruinados pelo Êxito”, chega à conclusão de que o fracasso representa, para o sujeito, o “preço a ser pago”, o tributo exigido por uma culpa subjacente. Demonstrando que as condutas repetitivas de Fracasso eram, ao mesmo tempo, uma maneira de suportar o ônus da culpa e uma prova de que esta última não se contentava com isso, pois exigia novos fracassos.
Isso revelava uma função particular da Repetição, a de pagar por uma culpa subjetiva, reduzindo assim a sua carga, sem por isso regulá-la.
Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud esclarece a função geral da Repetição, o que o leva a segunda tópica do aparelho psíquico e a teorização da Pulsão de Morte.
Para Freud, a Repetição é, pois consequência do trauma, uma tentativa inútil de anulá-lo e, também uma forma de lidar com ele, levando o sujeito a um outro registro, diferente do prazer, pois o que ele repete não tem correspondência com qualquer desejo.
É a Repetição que vai servir de fundamento para explicar a Pulsão de Morte, aponta Garcia-Roza, “…algo mais primitivo, mais elementar e mais pulsional que o princípio do prazer” e que se expressa pela Compulsão à Repetição. A repetição é uma característica própria da pulsão.
A Pulsão é um impulso inerente à vida orgânica no sentido de restaurar um estado anterior de coisas, isto é, no sentido de retornar ao estado inorgânico.
Freud vai afirmar que o caráter conservador da Pulsão é a resistência à mudança e a Repetição, do mesmo. O que ela repete é, pois, o mais arcaico, o estado inicial do qual o organismo se afastou por exigência de fatores externos: o inorgânico.
“Seremos então compelidos a dizer que o objetivo da toda vida é a morte.”.
O objetivo da Pulsão de Vida não é evitar que a morte ocorra, diz Freud – é o fato de que o organismo deseja morrer apenas de seu próprio modo.
Freud enfatiza que ao falar da Compulsão à Repetição, se refere a repetição, do mesmo, do idêntico, e que ela apresenta em alto grau um caráter pulsional. Enfatiza que essa Repetição é a própria natureza das Pulsões, “…uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer.”
A Repetição é o ato pelo qual a Pulsão é presentificada, mas ao mesmo tempo, o ato pelo qual ela permanece oculta.
Podemos concluir que a Repetição, revela e implica um saber; num outro lugar, aí onde eu não sou, isso sabe, e isso sabe alguma coisa.
A pulsão reprimida nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação completa que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação.
Assim, Lacan, vai apontar que a Wiederholungszwang na tradução deixa somente manifesto o caráter automático, repetitivo da sintaxis significante. E traduz o Wiederholen como automatismo de repetição, dividindo-o em dois:
AUTÔMATON: aqui o automatismo vai se apresentar na insistência do significante, como o retorno dos signos. Usando dos conceitos da lógica modal, vai nos dizer que apresenta o caráter do necessário – àquele que não cessa de insistir sempre da mesma maneira; colocando como exemplo o Sintoma.
TIQUÊ: encontro com o Real, àquele cujo caráter é o de – não cessa de não se inscrever. Existe um núcleo impossível de simbolizar-se, de reduzir, de digerir e que volta sempre. Este núcleo impossível que volta é o que leva Lacan a localizar a repetição em relação ao Real. O Real é o suporte do Fantasma, e o Fantasma protege o sujeito do Real.
O Fantasma é como o que esconde esse núcleo que está no meio e que motiva toda a repetição, é um encontro faltoso, encontro traumático, mal encontro.
A Repetição envolve algo que, por mais que se tente, não se consegue lembrar, porque está excluído da cadeia significante.
A Repetição envolve o “impossível de pensar” e o “impossível de dizer”.
Afinal, o que é esse Real a que Lacan se refere?
Garcia-Roza vai nos dizer que o Real se constitui em termos de diferencial acaso-ordem, um fundo de acaso o qual se constituem ordens emergentes. Ordem e Acaso são dois modos de Real contrários e complementares.
Por quê, o Real pertence a categoria do impossível?
Porque o Real é aquilo que não pode ser simbolizado totalmente na palavra ou na escrita e, por consequência, não cessa de não se escrever – por ter sido instalado no lugar pelo próprio simbólico. Um Real subjacente a toda simbolização.
Bruce Fink (1997) vai dizer que:
“[…] não há encontro direto com o Real nem mesmo em sonho: a representação do Real é faltosa e o que encontramos no sonho é o seu lugar-tenente, seu representante.”
E a seguir se pergunta: O que é Representação (Vorstellung)?
“[…] é aquilo que é representado por significantes; não são os próprios significantes. Parece ser uma presença ou imagem real que jamais pode ser expressa em palavras. Impensável, inominável indizível.
Afirmando para concluir que […] é a natureza não representacional do Real que acarreta a Repetição, exigindo que o sujeito volte ao lugar do objeto perdido, da satisfação perdida.
