ABERTURA DAS ATIVIDADES NA BFC – SEMINÁRIO 11


Lacan fala meu ensino, portanto se coloca na posição daquele que ensina – ensinador – aquele que tem alunos e fala para alguns – PSICANALISTAS.
Esse ensino abrange 30 anos; de 1951 a 1980 – os quais contemplam 27 seminários. Antes disso Lacan proferiu dois seminários – na sua casa, sobre o Homem dos ratos e sobre o Homem dos lobos, casos de Freud.
Também foi autor: Escritos e Outros Escritos – os quais se caracterizam por serem demanda de outros por um texto.
Para ele nos Escritos está o que ele seleciona para ser preservado. Os Seminários são o lugar da invenção, invenção de um saber. Assim numa carta a Althusser de 21/11/1963 – momento em que procurava um espaço onde pudesse proferir seus seminários diz: “[…] O seminário, onde tento, há dez anos, traçar uma dialética cuja invenção foi para mim uma tarefa maravilhosa.”. Assim, ele não deixa dúvidas quanto ao seu objetivo maior, a formação dos psicanalistas – “ […] é uma invenção que supõe, já disse um endereçamento ao outro, um endereçamento aos psicanalistas.”. (Lacan – 1964)
A psicanálise é uma práxis, Lacan fala de experiência psicanalítica, que qualifica a um só tempo como um processo de tratamento e um processo de formação.
O Seminário 11, iniciou em 15/01/1964, na Escola Normal Superior, Lacan inicia este com a seguinte frase: “Senhoras, Senhores, – Na série de conferências de que estou encarregado pela sexta sessão da Escola Prática de Altos Estudos, vou lhes falar dos fundamentos da psicanálise.” Neste dia conhece Jacques Alain Miller – que lhe diz que para editar seus seminários – “[…] que aquilo deveria ser feito passo a passo […] editar sentença por sentença”, sendo impelido por Lacan “[…] prove! […] não fale, apenas faça.” (Müller – 1997)
Lacan, neste ano de 1964, estava ocupado em manter, seu ensino – a ponto de chegar a se questionar: “[…] Em que estou autorizado?” (Seminário 11 – p.09)
Nos diz, que está autorizado por ter durante dez anos feito um seminário que se dirigia a psicanalistas e acrescenta – “[…] à qual havia verdadeiramente dedicado minha vida”. (Seminário 11 – p.09)
Há um corte entre esse seminário e os dez anteriores que eram dados no Hospital de Sant Anne – nestes havia um público selecionado de não mais de 100 pessoas e estava sob os auspícios da IPA.
Em 64 – na Escola Normal Superior, qualquer pessoa podia entrar e Lacan chegou a ter até 600 pessoas, que vinham escutá-lo.
O Seminário de 1964 – havia sido anunciado com o título “Os Nomes-do-Pai” – devido a problemas institucionais com a IPA – Lacan é proibido de dar seu seminário e de ser analista didata – algo que fazia há dez anos dentro da instituição.
Lacan não foi expulso da IPA – em 1953, juntamente com alguns colegas – deixa o instituto francês – a Sociedade Psicanalítica de Paris. Em função de que esta tinha uma direção autoritária a qual lhe era inaceitável. A partir daí solicitara a IPA, que reconhecesse o novo instituto.
Em 1963, recebe uma carta assinada por Ruth Eissler, dizendo que uma vez que tinha deixado o instituto francês, este não era mais membro da IPA.
Em função deste fato, em 21/06/1964, Lacan cria sua própria escola: Escola Freudiana.
Vai assim, falar dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, funda a Escola Freudiana fala de conceitos freudianos para mostrar que não é um dissidente.
A partir daí Lacan irá além de Freud, que está em Freud. “[…] Lacan está à procura de alguma coisa em Freud de que o próprio Freud não se deu conta.” (Miller – 1997)
A partir desse seminário, começa a introduzir conceitos que considera como seus próprios. Ao falar do inconsciente, vai trazer à tona o sujeito do inconsciente.
Para tanto nos chama a atenção para a questão da fala – porque é na fala que o inconsciente se apresenta como tropeço, desfalecimento, rachadura, descontinuidade. Lacan vai nos colocar assim: “[…] tropeço, desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente. Ali alguma outra coisa quer se realizar – algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim de começo, que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente.” (Seminário 11 – p.30)
Assim, tenta nos mostrar que o que se produz nessa hiância, é um sujeito que não tem substância – nos diz ele, que tropeça e nos permite vislumbrar seu próprio desejo – então sujeito de desejo.
Ao que vai completar com: “inconsciente é estruturado como uma linguagem”. (Seminário 11 – p.25)
Para isso, se apoia nas ideias de Saussure e o seu modelo de jogo combinatório: significado/significante.
Para entender, com Freud vimos que o inconsciente tem dois mecanismos básicos de funcionamento: a condensação e o deslocamento. Mecanismos que Lacan vai interpretar como análogos as figuras linguísticas da metáfora e da metonímia. Tomando as ideias de Saussure sobre o signo linguístico que o mesmo defini como uma unidade composta de duas partes – Significado/Significante, dizendo que o significado tem primazia sobre o significante. Assim, Lacan irá apropriar-se desta teoria para subvertê-la da seguinte forma: coloca que a primazia é do significante, portanto – Significante/Significado, sendo que a barra indica uma autonomia do significante com relação ao significado. Indica duas ordens distintas, interpondo-se entre ambas uma barreira resistente à significação. O significante não tem por função representar o significado, mas ele precede e determina o significado. Somente as correlações do significante com o significante fornecem o padrão de qualquer busca de significado, ou seja, a cadeia dos significantes é ela própria a produtora de significados. Ao que, Lacan vai dizer que: “um significante é o que representa um sujeito para outro significante” (Seminário 11 – p.197)
De qual sujeito Lacan está falando? do sujeito do inconsciente, engendrado a partir da falta, sujeito de desejo.
A forma também como esse inconsciente se apresenta é através da Repetição. Autômaton articulação de significantes. Tiquê encontro com o real.
É em Hegel que vai buscar a designação de real – como aquilo que tem efeitos, o real como o que é a causa, e para tanto vai colocar que: “[…] O encontro é sempre faltoso – é isto que constitui a tique […]” (Seminário 11 – p.56)
Passa a seguir para a questão da Transferência, a qual associa ao sujeito e ao saber e a conecta com a realidade psíquica, para isso vai nos dizer que: “[…] a transferência é a atualização da realidade do inconsciente” e a realidade do inconsciente é a realidade sexual. (Seminário 11 – p.143)
O quarto conceito fundamental a ser trabalhado é o da Pulsão. Lacan vai falar da pulsão invocante – e diz que esta está ligada diretamente ao inconsciente; e a pulsão escópica, além das já trabalhadas por Freud, em Pulsão e suas vicissitudes – pulsão oral e anal. Também introduz a questão do gozo.
Para finalizar este, pensamos ser necessário enfatizar que o fio condutor deste seminário está voltado para a formação dos analistas e para a experiência da análise.

Texto elaborado para divulgação do trabalho realizado junto a Biblioteca Freudiana de Curitiba (BFC), apresentado em 01/02/2025.

Cláudia Cristina Dadalt
CRP08/8345
Rozana Mazetto
CRP08/1308

Referências Bibliográficas

1)Lacan, Jacques
O Seminário Livro 11
Jorge Zahar Editor – 1988

2)Feldstein, Richard organização
Para Ler o Seminário 11 de Lacan
Jorge Zahar Editor – 1997


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