Lacan inicia este capítulo aludindo ao que já havia colocado anteriormente, que em Freud “…basta a gente se abaixar para colher o que há para achar.” (p.205)
Sentenciando que: “Eu não procuro, acho.”.
Para tanto, diz, que quer nos mostrar a importância da Vorstellungsrepräsentanz no nível do recalque, designada por Freud.
Diz, que a língua alemã usa do S para ligar palavras compostas, e que na palavra acima temos dois termos: Vorstellung e Repräsentanz.
Aponta que no capítulo anterior falou da forma da alienação, articulando-a num vel – de natureza muito especial. Especial porque esta é para a formação do sujeito condição necessária, e que nos conduz a passar pela questão do significante, não esquecendo que Lacan, já nos colocou que: “… o significante é o que representa um sujeito para outro significante.”.
Assim irá nos chamar atenção para a tradução desse Vorstellungsrepräsentanz, pontuando que Freud enfatiza o seguinte: “… o recalcamento cai sobre algo que é da ordem da representação, que ele denomina Vorstellungsrepräsentanz.” (p. 206)
Segue dizendo que Freud em seu artigo Verdrängung, coloca: “… que não é de modo algum o afeto que é recalcado. O afeto … ele vai passear em outro lugar, onde ele pode.” (p. 206)
Para afirmar, que o que é recalcado é o representante da representação.
Assim colocando:
“… O Vorstellungsrepräsentanz é o representante, digamos, representativo.” (p.206)
Afirmando assim, que traduz Vorstellungrepräsentanz por representante da representação.
A seguir vai discorrer sobre os mecanismos da alienação e a Vorstellungsrepräsentanz dizendo que:
“… Podemos localizá-lo em nosso esquema dos mecanismos originais da alienação, esse Vorstellungsrepräsentanz, nesse primeiro acasalamento significante que nos permite conceber que o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito, para um outro significante, o qual outro significante tem por efeito a afânise do sujeito. Donde divisão do sujeito ($) – quando o sujeito aparece em algum lugar como sentido, em outro lugar ele se manifesta como fading como desaparecimento. Há então, se assim podemos dizer, questão de vida e de morte entre o significante unário e o sujeito enquanto significante binário, causa de seu desaparecimento. O Vorstellungsrepräsentanz é o significante binário. Este significante vem constituir o ponto central da Uverdrängung (Recalque primário) – daquilo que, a ser passado ao inconsciente será como indica Freud em sua teoria, o ponto de anziehung, o ponto de atração por onde serão possíveis todos os outros recalques, todas as outras passagens similares ao lugar do Urterdrückt, do que é passado por baixo como significante. Aí está o de que se trata no termo Vorstellungsrepräsentanz.” (p. 207)
Para seguir esclarecendo a segunda volta do processo da formação do sujeito, a qual denomina separação.
“…Aquilo pelo que o sujeito encontra a via de retorno do vel da alienação é essa operação que chamei outro dia, separação. Pela separação o sujeito acha, se podemos dizer, o ponto fraco do casal primitivo da articulação significante, no que ela é de essência alienante. É no intervalo entre esses dois significantes que vige o desejo oferecido ao balizamento do sujeito na experiência do discurso do Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar, ponhamos para ilustrá-lo, a mãe, no caso. É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, do que ela intima, do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo, é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito. O sujeito – por um processo que não deixa de conter engano, que não deixa de representar essa torção fundamental pela qual, o que o sujeito reencontra não é o que anima seu movimento de tornar a achar – retorna então ao ponto inicial, que é o de sua falta como tal, da falta de sua afânise.” (p. 207)
Lacan aqui vai apontar que esse efeito de torção – alienação, separação – trás consequências para a cura psicanalítica, pois é essencial para integrar a fase de saída da transferência.
Para tanto, vai dizer que devemos nos ater ao que é essencial da função do desejo. “…A saber, que é na medida em que o sujeito vem a representar sua parte jogar sua partida na separação que o significante binário, o Vorstellungsrepräsentanz é unterdrückt (suprimido), cai por baixo.” (p. 208)
Para tanto afirma:
“… O de que o sujeito tem que se libertar é do efeito afanísico do significante binário.” (p. 208)
No ponto dois deste capítulo, Lacan vai nos esclarecer que o termo Repräsentanz – devemos entendê-lo como função de serem puros representantes, e nos alerta para que: “… Eles não representam, um frente ao outro, mais do que essa função de serem puros representantes e, sobretudo, não é preciso que intervenha sua significação própria.” (p. 209)
Usando para nossa melhor compreensão o exemplo dos diplomatas, que representam suas nações, e que estes devem: “… registrar apenas o que o outro transmite em sua pura função significante, não devem levar em conta o que o outro é, como presença…” (p. 209)
Portanto, enfatiza:
“O termo Repräsentanz deve ser tomado nesse sentido. O significante ter que ser registrado como tal, está no polo oposto da significação. A significação, esta, entra em jogo na Vorstellung.” (p. 209)
A seguir vai trabalhar o termo Vorstellung, para nos dizer que: “… aqui se situa a subjetividade à qual se suspende a teoria do conhecimento …” afirmando mais adiante que: “… não se pode saber nada.”
Asseverando que: “… Não há sujeito sem, em alguma parte, afânise do sujeito, e é nessa alienação, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito.” (p. 209)
Ao que logo a seguir vai apontar que só há uma saída para o vel da alienação – a via do desejo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1) Dicionário de Psicanálise Freud e Lacan – Livro 2
Agalma – 1998
Verbete – O conceito de Representação
P. 63 – Josiane Thomas-Quilichini
Texto utilizado para ampliar a compreensão do conceito Vorstellungsrepräsentanz.
