O termo Psicose foi introduzido em meados do século XIX, para substituir a expressão loucura.
Freud toma este vocábulo, num primeiro momento para definir a construção de uma realidade delirante e alucinatória, por parte de um sujeito para afastar-se da realidade. Posteriormente o inscreve, numa estrutura tripartite da psique, Neurose – Psicose – Perversão. Ao longo de sua teorização da psicanálise, vai – como o diz Lacan – lançando “pedras” ao longo do caminho, que Lacan as tomará, para ir adiante nas suas formulações.
Sabemos que Freud iniciou sua práxis psicanalítica com o material desprezado pela medicina de sua época – as histéricas e sua sintomatologia. Lacan por sua vez, se depara na sua formação médica, com a psicose paranoica. Ao compor sua tese de doutorado, começa a se deparar com as “pedras” que Freud foi lançando na sua obra.
Principalmente, quando Freud, analisa o livro de Daniel Paul Schreber (1911), em Além do Princípio do Prazer (1920) e o Ego e o Id (1923); quando Freud, nos apresenta sua segunda tópica do aparelho psíquico – Ego – Superego – Id, e ao final de 1923, em seu artigo Neurose e Psicose, vai nos dizer: “…a psicose, é o desfecho análogo de um distúrbio nas relações entre o ego e o mundo externo.” (pg. 167), e neste mesmo texto deixa a seguinte “pedra” para Lacan trabalhar: “…Em conclusão, resta a considerar a questão de saber qual pode ser o mecanismo, análogo a repressão, por cujo intermédio o ego se desliga do mundo externo.” (pg. 171).
Lacan em seu terceiro seminário – As Psicoses, já nas suas primeiras páginas, vai nos colocar que para compreendermos a experiência analítica, é necessário reconhecer, as três ordens, a saber: O Simbólico, O Imaginário e O Real.
E vai nos esclarecer:
O Simbólico: “…que está além de toda a compreensão, no interior da qual toda compreensão está inserida, e que exerce uma influência tão manifestamente perturbadora nas relações humanas e inter-humanas,” (pg.17);
O Imaginário: O imaginário podemos entendê-lo a partir da imagem. “… o imaginário é sem dúvida guia de vida… Se a imagem desempenha igualmente um papel capital no campo que é nosso, esse papel é inteiramente retomado, refeito, reanimado pela ordem simbólica.” (pg.17);
O Real: sendo o impossível de se representar, é aquilo que não é decifrado, mas, se cifra.
Ao distinguir estes três registros, sobrepondo-os a segunda tópica freudiana – Ego – Superego – Id, pontua que: “… na psicose, o inconsciente está a superfície, é consciente.” (pg.20).
Afirmando, para tanto, que: “…o inconsciente é uma linguagem. Que ela seja articulada nem por isso implica que ela seja reconhecida.” (pg.20); ao que vai nos dizer que o sujeito psicótico ignora a língua que ele fala.
Porém, é preciso ir além, e buscar compreender por que para o psicótico, o inconsciente está excluído e aparece no Real.
Lacan vai evocar aqui as teorias já colocadas por Freud, retomadas por Jean Hippolite no seu comentário sobre a Verneinung (negação), colocando o seguinte: “… no que é inconsciente, tudo não é somente recalcado, isto é, desconhecido pelo sujeito após ter sido verbalizado, mas que é preciso admitir, atrás do processo de verbalização, uma Bejahung (afirmação) primordial, uma admissão no sentido do simbólico, que pode ela própria faltar. … um fenômeno de exclusão, para o qual o termo Verwerfung (foraclusão) parece válido, e que se distingue da Verneinung (negação), a qual se produz numa etapa muito ulterior. Pode acontecer que um sujeito recuse o acesso, ao seu mundo simbólico, de alguma coisa que, no entanto, ele experimentou e que não é outra coisa naquela circunstância senão a ameaça de castração. Toda a continuação do desenvolvimento do sujeito mostra que ele nada quer saber disso, …no sentido do recalcado. O que caiu sob o golpe do recalque retorna, pois, o recalque e o retorno do recalcado são apenas o direito e o avesso de uma mesma coisa. O recalcado está sempre aí, e ele se exprime de maneira perfeitamente articulada nos sintomas … Em compensação, o que cai sob o golpe da Verwerfung tem uma sorte completamente diferente. …tudo que é recusado na ordem simbólica, no sentido da Verwerfung, reaparece no real.” (pg. 21).
Para assim nos colocar que na psicose, o que veremos os pacientes nos apresentarem serão chamados de “fenômenos elementares”.
O que são “Fenômenos Elementares”?
Este termo, “fenômenos elementares”, Lacan o toma de seu mestre Clérambault, para com ele ir além na sua conceitualização, assim já nos colocou acima que quando o sujeito se coloca assujeitado ao recalque, ele neuroticamente produz: sintomas, chistes, atos falhos, sonhos. Porém, quando este foraclui a ameaça de castração que seria produzida pelo pai, para este sujeito haverá exclusão de um significante que possibilitaria ao sujeito se colocar dentro das leis da linguagem.
Assim, podemos concluir que a “Foraclusão”, é o “fechar fora”, excluir do simbólico um fato real. Ao que Lacan irá definir a psicose como um distúrbio de linguagem, pois, o que foi foracluído , será para sempre indizível, excluído da história do sujeito e nunca mais será encontrado.
Em função do colocado este sujeito irá apresentar “fenômenos elementares”, como: automatismo mental, alucinações, delírios.
Com o exposto acima, podemos concluir que Lacan, toma as pedras deixadas por Freud, as lapida e torna-as preciosas, possibilitando aos psicanalistas um fazer clínico com pacientes com estruturas psicóticas.
Trabalho apresentado ao Grupo de Estudos “Fabrica de Casos” da Biblioteca Freudiana de Curitiba em 14/12/2023.
