CAPÍTULO XV – DO AMOR À LIBIDO


         Este capítulo inicia com Lacan nos dizendo que tem o propósito de nos levar do amor (1) – à libido (2).

         Anuncia que para elucidar, vai dizer que: “[…]a libido não é algo fugaz […]a libido deve ser concebida como um órgão, nos dois sentidos do termo, órgão-parte do organismo e órgão-instrumento.” (p.177)

         Faz alusão a questão do inconsciente como uma lanterna, que pode levar um pouco de tempo para se acender.

         “[…]No sujeito que, alternativamente, se mostra e se esconde, pela pulsação do inconsciente, não apenas apreendemos pulsões parciais. A ganzeSexualstrebung – representação da totalidade da pulsão sexual – Freud nos diz, ela não está lá.”. (p.178)

         Para tanto afirma que nos conduz depois de Freud, que pode através da experiência clínica, se deparar com a relação do sujeito ao Outro, e se pergunta: “[…]a relação do sujeito ao Outro, onde enfim, ela termina?” (p.178) Para responder:

         “[…]Que o sujeito como tal está na incerteza em razão de ser dividido pelo efeito de linguagem […] pelo efeito da fala, o sujeito se realiza sempre no Outro, mas ele aí já não persegue, mas que uma metade de si mesmo. Ele só achará seu desejo sempre mais dividido, pulverizado, na destacável metonímia da fala. O efeito de linguagem está o tempo todo misturado com o fato, que é o fundo da experiência analítica, de que o sujeito só é sujeito por ser assujeitamento ao campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro. É por isso que ele precisa sair disso, e no tirar-se disso, no fim, ele saberá que o Outro real tem, tanto quanto ele, que se tirar disso, que se safar disso. É mesmo aí que se impõe a necessidade da boa-fé, fundada na certeza de que a mesma implicação da dificuldade em relação às vias do desejo existe também no Outro.” (p.178)

         Isto para nos alertar que a alienação do sujeito ao Outro é o destino inevitável – fazendo-nos ver que a alienação é ao significante, o movimento de separação requer que o sujeito queira separar-se da cadeia significante.

         Segue evocando as figuras de Abrão, Isac e Jacó (3), que Leon Bloy (4) em sua obra – Le Salut par les Juifs (A salvação dos Judeus), nos mostra essas três figuras como antiquários, dizendo que eles faziam triagem, e compara a eles Freud, que ao modo de, faz isso em relação as pulsões parciais – as coloca de um lado – e do outro, o amor. Asseverando que: “[…]não é a mesma coisa.” (p.179)

         “[…]As pulsões nos necessitam na ordem sexual – isso, isso vem do coração. Para nossa maior surpresa, ele nos ensina que o amor, do outro lado, ele vem do ventre, é o que é rom-rom.” (p.179)

         Diz que isto pode surpreender, mas esclarece sobre algo fundamental da experiência analítica, quanto a pulsão genital – e coloca em xeque sua existência, pois a mesma, não é articulada com outras pulsões. Apontando aqui um engano de Freud, quanto a reversão (5) (Verkehrung) e a ambivalência (6), dizendo-nos que não são a mesma coisa.

         “[…]Se então a pulsão genital não existe, ela só pode se f…feiçoar alhures, do outro lado e não do lado onde há pulsão, […]vocês já veem que é à direita, no campo do Outro, que ela tende ir se fazer feiçoar, a pulsão genital.” (p.179)

         Vai apontar, que aprendemos com a experiência analítica que: […]a pulsão genital está submetida a circulação do complexo de Édipo, às estruturas elementares e outras de parentesco. É o que se designa como campo da cultura…” (p.179)

         A seguir afirma que: “[…]para conceber o amor, é a uma espécie de estrutura diferente da pulsão que é preciso necessariamente referir-se. Essa estrutura, ele a divide em três níveis – nível do real, nível do econômico, nível do biológico por último.” (p.179)

         Vai explicar que aí temos oposições que se correspondem: “[…] no nível do real, é o que interessa e o que é indiferente. No nível do econômico, o que dá prazer e o que dá desprazer. É somente no nível do biológico que a oposição atividade/passividade se apresenta, se apresenta em sua forma própria, a única válida quanto ao seu sentido gramatical, a posição amar – ser amado.” (p.180)

         Lacan segue explanando a gênese do eu, e sua relação com o Outro. Acrescenta que, “[…]o amor, em sua essência, só deve ser julgado como paixão sexual do gesamt Ich (eu total)” (p.180), e irá equipará-lo ao estágio do Real Ich, localizando-o nos primórdios do sujeito, fase que denomina de autoerotismo – um momento inicial em que as pulsões tendem a sua livre satisfação, e atuam de forma independente, satisfazendo-se com o próprio corpo.

         “[…]O autoerotisch – consiste nisto – e o próprio Freud o sublinha – que não haveria surgimento dos objetos se não houvesse objetos bons para mim. Ele é o critério do surgimento e da repartição de objetos.” (p.180)

         Para nos esclarecer, que o sujeito só pode ascender a fase de objeto, se nesta fase – do autoerotismo – toma a si próprio como objeto, objeto bom – num movimento de entropia, como já pontuou Lacan, levando a constituição do campo do prazer (Lust-Ich) e ao campo do desprazer (Unlust), do objeto como resto, como estranho.

         “[…]Neste nível, não há traço de funções pulsionais, senão das que não são verdadeiras pulsões, e que Freud chama em seu texto as Ichtriebe (pulsões do ego). O nível do Ich é não pulsional, e é aí – […]que Freud funda o amor. Tudo que é assim definido no nível do Ich só toma valor sexual, só passa da Erhaltungstrieb (pulsão de conservação), da conservação, ao Sexualtrieb (pulsão sexual), em função a apropriação de cada um desses campos, sua apreensão, por uma das pulsões parciais… […] trata-se aqui da diversidade das pulsões parciais. É a isso que somos levados no terceiro nível que ele faz intervir, da atividade – passividade.” (p.181)

         Fazendo-nos ver que Freud assenta as bases do amor, quando as pulsões se parcializam a partir da entrada do sujeito neste terceiro nível em que sobrevêm atividade-passividade, entrando em jogo o que é propriamente da relação sexual.

         Se questiona, se a relação atividade-passividade, cobrirá ela a relação sexual?

         Para tanto nos remete aos textos de Freud – Homem dos lobos (7) e as Cinco Psicanálises (8), e diz que Freud ali explica: […] que a referência polar atividade – passividade está ali para denominar, para recobrir, para metaforizar o que resta de insondável na diferença sexual. Jamais em parte alguma ele sustenta que, psicologicamente, a relação masculina–feminino seja apreensível de outro modo senão pelo representante da oposição atividade – passividade. […]a oposição masculino-feminino jamais é atingida.” (p.181)

         Conclui que nessa oposição passividade-atividade é onde se assentam as bases do amor e da relação.

         “[…]a sexualidade como tal faz seu retorno, exerce sua atividade própria, por intermédio – por mais paradoxal que isso pareça – das pulsões parciais.” (p.183)

         Segue afirmando que:

         “[…] Tudo que Freud soletra das pulsões parciais nos mostra […]esse movimento circular do impulso que sai através da borda erógena para ela retornar como sendo seu alvo, depois de ter feito o contorno de algo que chamo de objeto a. […]é por aí que o sujeito tem que atingir aquilo que é, propriamente falando, a dimensão do Outro.” (p.183)

         No entanto, diz que há uma distinção radical entre o “amar-se através do outro” – que no campo narcísico do objeto – traz o objeto incluído – “e a circularidade da pulsão” – que no seu circuito mostra em seu intervalo uma hiância.”

         Para a seguir se perguntar – o que tem de comum no ver e ser visto? E nos diz que há uma diferença entre olhar um objeto estranho – e ser olhado por uma pessoa estranha, para asseverar que “[…]a raiz da pulsão escópica deve ser pega por inteiro no sujeito, no fato de que o sujeito se vê a si mesmo.” (p.183)

         Assim marca que – “[…]o de que se trata na pulsão, é de se fazer ver. A atividade da pulsão se concentra nesse se fazer…” (p.184)

         Lacan segue esclarecendo que Freud deixou alguns buracos na sua enumeração das pulsões; depois do se fazer ver, trará outro, o se fazer ouvir.

         “[…] É preciso que, muito depressa, eu lhes indique a diferença para com o se fazer ver. Os ouvidos são, no campo do inconsciente, o único orifício que não se pode fechar. Enquanto o se fazer ver se indica por uma flecha que verdadeiramente retorna para o sujeito, o se fazer ouvir vai para o outro. A razão disso é de estrutura…” (P.184)

         Para a seguir chamar atenção para a pulsão oral, e diz que aqui se fala das fantasias de devoração – se fazer papar – apontando que aí temos “[…]todas as ressonâncias do masoquismo, o termo outrificado da pulsão oral. […] Pois que nos referimos ao latente e ao seio, e que o aleitamento, é a sucção, digamos que a pulsão oral, é se fazer chupar, é o vampiro.” (184)

         “[…]Isto nos esclarece, aliás, sobre o que é desse objeto singular – que me esforço para descolar no espírito de vocês, da metáfora alimento – o seio. O seio é também algo chapado, que chupa o quê? – o organismo da mãe. Assim está suficientemente indicada, neste nível, qual é a reivindicação, pelo sujeito, de algo que está separado dele, mas lhe pertence, e do qual se trata que ele se complete.” (p.185)

         Ao passar para a pulsão anal, diz que o – se fazer cagar – tem um sentido.

         “[…] Quando se diz – estou cagando de medo – tem-se relação com o eterno merdificador. É bem errado identificar simplesmente o famoso cíbalo com a função que lhe dão no metabolismo da neurose obsessiva. É errado amputá-lo do que o representa, no caso, do presente, e da relação que ele tem com a sujeira, com a purificação, com a catarse. É errado não ver que é daí que ela saiu, a função da oblatividade (9). Numa palavra, o objeto, aqui, não está muito longe do domínio do que chamamos o da alma.” (p.185)  

         Para fechar o item três, Lacan pontua quê:

         “[…] O que é que esse breve sobrevoo nos revela? Não parece que, nesse reviramento que representa seu bolso, a pulsão, invaginando-se através da zona erógena, está encarregada de ir buscar algo que, de cada vez, responde no Outro? (10) Não refarei a série. Digamos que no nível da Schaulust, é o olhar. Eu só o indico para tratar mais tarde dos efeitos sobre o Outro, desse movimento de apelo.” (p.185)

         Lacan vai abrir o item 4 deste capítulo, marcando a relação da polaridade – atividade/passividade – do ciclo pulsional, com algo que está no centro. É um órgão, “[…]a se tomar no sentido de instrumento, da pulsão” (11)

         Sendo que a seguir irá nos fazer olhar para questão da sexualidade, que como já pontuou, é a partir da polaridade do ciclo pulsional – atividade/passividade – que ela se faz presente para o sujeito.

         “[…] O órgão da pulsão se situa por relação ao verdadeiro órgão. Para fazer vocês sentirem e para sustentar o que é aí o único polo que, no domínio da sexualidade está a nosso alcance suscetível de ser apreendido, eu me permitirei avançar diante de vocês um mito – sobre o qual tomarei o apadrinhamento histórico do que é dito no Banquete de Platão, na boca de Aristófanes (12), concernente à natureza do amor.” (p.185)

         Para tanto vai dizer que nos deu a via para cavar esse campo, a saber – “o inconsciente era feito de linguagem”.

         Refere-se ao diálogo de Platão, como um relato feito para divertir – e que Aristófanes construiu uma fábula que ninguém ao longo dos séculos tentou fazer melhor, eu vou tentar – afirma Lacan.

         Em consequência sustenta:

         “[…] Vou lhes falar da Lâmina.” (p.186)

         Se quisermos manter o efeito de blague – colocado por Aristófanes, podemos chamá-la de homelete.

         “[…] De cada vez que se rompem as membranas do ovo de onde vai sair o feto em passo de se tornar um neonato, imaginem por um instante que algo se volatiliza, que com um ovo se pode fazer tanto um homem quanto um homelete, ou a lâmina.” (p.186)

         Assim sendo vai pontuar:

         “[…] A Lâmina é algo […]que tem relação com que o ser sexuado perde na sexualidade […] Essa lâmina, esse órgão, que tem por característica não existir, mas que não é por isso menos um órgão […]é a Libido.” (p.186)

         A isso vai complementar com o seguinte:

         “[…] É a Libido, enquanto puro instinto de vida, quer dizer, de vida imortal, de vida inapreensível, de vida simplificada e indestrutível. É o que é justamente subtraído ao ser vivo pelo fato de ele ser submetido ao ciclo da reprodução sexuada. E é disso aí que são os representantes, os equivalentes, todas as formas, que se podem enumerar do objeto a. Os objetos a são apenas seus representantes, são figurações. O seio – como equívoco, como elemento característico da organização mamífera, a placenta por exemplo – bem representa essa parte de si mesmo que o indivíduo perde ao nascer, e que pode servir para simbolizar o mais profundo objeto perdido. Para todos os outros objetos eu poderia evocar a mesma referência.” (p.186/187)

         Conclui que a relação do sujeito ao campo do Outro se esclarece com essas proposições. E completa:

         “[…] Se o sujeito é o que lhes ensino, a saber, o sujeito determinado pela linguagem e pela fala, isto quer dizer que o sujeito, in initio, começa no lugar do Outro, no que é lá que surge o primeiro significante. (p.187)

         E o que é o significante, se pergunta – “um significante é aquilo que representa um sujeito […] para um outro significante.” (p.187)

         “[…] O sujeito nasce no que, no campo do Outro, surge o significante. Mas por este fato mesmo, isto – que antes não era nada senão sujeito por vir – se coagula em significante. A relação ao Outro é justamente o que, para nós, faz surgir o que representa a Lâmina – não a polaridade sexuada, a relação do masculino com o feminino, mas a relação do sujeito vivo, com aquilo que ele perde por ter que passar, para sua reprodução, pelo ciclo sexual.” (p.188)

         Para finalizar esse capítulo, reitera:

         “[…] Explico assim a afinidade essencial de toda a pulsão com a zona da morte e concilio as duas faces da pulsão – que, ao mesmo tempo, presentifica a sexualidade no inconsciente e representa, em sua essência a morte. […]falei do inconsciente como do que se abre e se fecha, é que sua essência é de marcar esse tempo pelo qual, por nascer com o significante, o sujeito nasce dividido. O sujeito é esse surgimento que, justo antes, como sujeito, não era nada, mas que, apenas aparecido, se coagula em significante.” (p.188)

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. AMOR – sentimento de apego de uma pessoa por outra, com frequência profundo, até mesmo violento, mas cuja análise demonstra que pode ser marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo. (Chemama/1995) Freud vai nos falar de duas formas de amar: o tipo narcisista – onde o sujeito busca a si mesmo como objeto de amor; e o tipo anaclítico ou por apoio no qual o amor se apoia nas pulsões de autoconservação, as quais visam a mulher que alimenta ou o homem que protege. Freud em Pulsão e suas vicissitudes, quando aborda as pulsões, vai nos trazer a noção de atividade/passividade para o funcionamento das pulsões e que um dos destinos da pulsão, a mudança do seu conteúdo – a qual só é observada na transformação do amor em ódio, e no caso desses dois sentimentos coexistirem dirigidos a um objeto, vamos nos deparar com a ambivalência. Também considera o amor como sendo a expressão da corrente sexual do sentimento. Ainda pontua que o amor pode dividir-se em três opostos na vida psíquica: amar – odiar; amar – ser amado; amar e o odiar como opostos da indiferença.

Para maiores esclarecimentos sobre a definição do amor ver: Sobre o narcisismo: Uma introdução (Freud/1914); A pulsão e suas vicissitudes (Freud/1915); Contribuições à psicologia do Amor I (Freud/1910); Contribuições à psicologia do Amor II (Freud/1912); Contribuições à psicologia do Amor III (Freud/1917-18); Verbete – Amor, escrito por Pierre-Henri Castel, in Dicionário Psicanálise – Agalma/1997.

  • LIBIDO – energia psíquica das pulsões sexuais, que encontram seu regime em termos de desejo, de aspirações amorosas, e que, para Freud, explica a manifestação do sexual na vida psíquica, portanto manifestação dinâmica da pulsão sexual. Energia de tudo que se pode colocar sob o nome de amor – Eros. Para Lacan, libido é “órgão irreal” que tem relação com a parte de si próprio que o ser vivo sexuado perde, na sexualidade. (Chemama – Dicionário Psicanálise – Artes Médicas/1995)
  •  Abraão, Isac e Jacó são os três patriarcas do povo de Israel.
  • Leon Bloy – escritor francês (1846/1917) polemista, condenou o materialismo burguês, e a paixão pelo dinheiro. Seu livro: Le Salut par les Juifs, foi publicado em 1892.
  • REVERSÃO – Freud em Pulsão e suas vicissitudes, vai colocar que: a Reversão (Verkehrung) de uma pulsão a seu oposto transforma-se imediatamente em um exame mais detido, em dois processos diferentes; a) uma mudança da atividade para a passividade – encontram-se exemplos desse processo em dois pares de opostos: sadismo – masoquismo e escopofilia – exibicionismo. A reversão aqui afeta apenas as finalidades da pulsão: a finalidade ativa – torturar, olhar – é substituída pela finalidade passiva – ser torturado, ser olhado; b) a reversão do conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do amor em ódio.
  • AMBIVALÊNCIA – disposição psíquica do sujeito, que sente ou manifesta, simultaneamente dois sentimentos, duas atitudes opostas em relação a um mesmo objeto, a uma mesma situação. A coexistência, em sujeitos, de tendencias afetivas opostas em relação a um mesmo objeto, induziria a organização de certos conflitos psíquicos, que impõe ao sujeito atitudes completamente contraditórias. Amor/Ódio. (Chemama/1995 – p.11/12)
  • Obras Completas Sigmund Freud – Imago – Vol. XVII – História de uma neurose infantil. (1914)
  • Cinco Psicanálises – trata-se das análises clínicas dos casos: Dora; Hans; Schereber; Homem dos Ratos e Homem dos Lobos, através das quais Freud apresenta as estruturas clinicas da psicose e da neurose (histeria, neurose obsessiva e fobia).
  • Oblatividade – condutas pelas quais um sujeito, ao renunciar ou sacrificar a si mesmo, prefere satisfazer o desejo de outrem. É um termo que Lacan usa desde seus primeiros seminários para se referir, em particular, a um traço da obsessão. Define-o como defesa, mito ou fantasia, ou como invenção sensacional do obsessivo. A oblatividade só é uma fantasia obsessiva enquanto se faz de véu da falta, tamponando e satisfazendo as necessidades. No nível anal é chamada, neste seminário, de metáfora, porquanto se dá um objeto por outro, as fezes no lugar do falo. Em razão do que não existe, da falta, sempre há o recurso de dar outra coisa como resposta à demanda do Outro. O que o sujeito pode dar se relaciona com aquilo que pode reter; suas fezes, ponto radical em que se decide a questão do desejo do sujeito em relação ao Outro. É na função de objeto cedível que esse objeto anal intervém na questão do desejo. O obsessivo em sua oblatividade, “essa invenção sensacional”, recorre à operação do amor, evitando a castração que se põe em jogo. O obsessivo, com seu amor oblativo, inventa um artifício para evitar a castração. Trata-se de um amor cujo estatuto difere daquele em que a eleição do parceiro está fundada no objeto a, ou seja, como encontro contingente, suplência do que não existe. (in Scilicet – Os objetos a na experiência psicanalítica – Verbete Oblatividade – Adriana Luka – 2008)
  • A resposta que Lacan dá a F. Wal, nesta explanação de 20/05/64, nos faz compreender de forma mais clara o que Lacan quer nos dizer. “[…] A Lâmina tem uma borda, ela vem inserir-se na zona erógena, quer dizer, num dos orifícios do corpo, no que esses orifícios – toda a nossa experiência o mostra – estão ligados à abertura-fechamento da hiância do inconsciente. As zonas erógenas estão ligadas ao inconsciente, porque é lá que se amarra a presença do vivo. Descobrimos que é precisamente o órgão da libido, a Lâmina, que liga ao inconsciente a pulsão dita oral, a anal, às quais acrescento a pulsão escópica e a que será preciso quase chamar pulsão invocante, que tem como lhes disse incidentemente – nada que eu digo é pura brincadeira – esse privilégio de não poder se fechar. (p.188)
  • Aqui vamos retomar a resposta de Lacan – já evocada na nota acima – para aclarar o que aqui está sendo dito: “[…] quanto à relação da pulsão com a atividade/passividade […]no nível da pulsão ela é puramente gramatical. Ela é suporte, artifício, que Freud emprega para nos fazer sacar o vaivém do movimento pulsional. Mas eu retornei quatro ou cinco vezes ao fato de que não poderíamos reduzi-la pura e simplesmente a uma reciprocidade. Indiquei hoje, da maneira mais articulada, que a cada um dos três tempos, a, b, c, com que Freud articula cada pulsão, importa substituir a forma do se fazer ver, ouvir e toda a lista que dei. Isto implica fundamentalmente atividade, com o que me ajunto ao que o próprio Freud articula ao distinguir os dois campos, o campo pulsional, de uma parte, e o campo narcísico do amor, de outra parte, sublinhando que, no nível do amor, há reciprocidade entre o amar e o ser amado, e que no outro campo, trata-se de uma pura atividade para durch seine eigene Triebe (através de suas próprias pulsões), para o sujeito.” (p.189)  
  • “[…] Na verdade, Erixímaco, disse Aristófanes, é de outro modo que tenho a intenção de falar, diferente do teu e do de Pausânias. Com efeito, parece-me os homens absolutamente não terem percebido o poder do amor, que se percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores sacrifícios lhe fariam, não como agora que nada disso há em sua honra, quando mais que tudo deve haver. É ele com efeito o Deus mais amigo do homem, protetor e médico desses males, de cuja cura dependeria sem dúvida a maior felicidade para o gênero humano. Tentarei, portanto, iniciar-vos em seu poder, e vós os ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes. Com efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humanidade, não dois como agora, o masculino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora o nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois rostos opostos uma ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. E quanto ao seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes genitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de Otes (Os dois gigantes que tentaram pôr sobre o Olimpo o monte Ossa e sobre esse o Pelião, a fim de atingirem o céu e destronarem Zeus) é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses. Zeus então e os demais deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e embaraçavam-se; não podiam nem os matar e, após fulminá-los como os gigantes, fazer desaparecer lhes a raça – pois as honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam – nem permitir-lhes que continuassem na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e mais úteis para nós, pelo fato de se terem tornado mais numerosos; e andarão eretos sobre duas pernas. Se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna andarão saltitando.” Logo que o disse pôs-se a cortar os homens em dois, como os que cortam as sorvas para a conserva, ou como os que cortam ovos com o cabelo; a cada um que cortava mandava Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do corte, a fim de que, contemplando a própria mutilação, fosse mais moderado o homem, e quanto ao mais ele também mandava curar. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma só abertura e ligava-a firmemente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a articular os peitos, com um instrumento semelhante aos dos sapateiros quando estão polindo nas fôrmas as pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão a volta do próprio ventre e do umbigo, para lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada uma por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher – o que agora chamamos mulher – quer com a de um homem; e assim iam se destruindo. Tomado de compaixão, Zeus consegue outro expediente, e lhes muda o sexo para frente – pois até então eles o tinham para fora, e geravam e produziam não um no outro, mas na terra, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez com que através dele se processasse a geração um no outro, o macho na fêmea, pelo seguinte, para que no enlace, se fosse um homem a encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade em seu convívio e pudessem repousar, voltar ao trabalho e ocupar-se do resto da vida. É de então há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana.” In Os Pensadores – Vol. III – Platão Diálogos – Abril Cultural – 1° Edição – 1972. (p.28/29/30)

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