Lacan aponta que terminou a explanação passada com a fórmula: “A Transferência é a atualização da realidade inconsciente”, dizendo que esta não está desenvolvida e porta promessas.
Já nos ficou claro de sua fala anterior, que o termo “promessa” se refere ao fato de que a questão sobre a transferência está em desenvolvimento – e o termo “atualização”, significa – pôr em ato. Acrescenta que o que enuncia é o que se “tenta evitar na análise da transferência”.
Adverte que para avançar é preciso adentrar no que seu ensino promoveu sobre o que concerne ao inconsciente.
“[…]O inconsciente, são os efeitos da fala sobre o sujeito, é a dimensão em que o sujeito se determina no desenvolvimento dos efeitos da fala, em consequência do que, o inconsciente, é estruturado como uma linguagem.”. (pag.142)
Afirma que fica claro que a apreensão do inconsciente ocorre pela compreensão da constituição do sujeito.
Aponta que seu ensino visa a questão transferencial – pois se dirige aos psicanalistas, e a sua prática analítica. Na medida em que estamos numa relação com a realidade do inconsciente.
E para tanto afirma:
“[…]A realidade do inconsciente é – verdade insustentável – a realidade sexual.” (pág.143)
E nos indica que Freud articulou isto, em cada oportunidade que teve.
E coloca a seguinte questão:
Por que é ela uma realidade insustentável?
Vai nos dizer que sobre a questão do sexo, a ciência tem nos colocado a questão da “[…]divisão sexual, na medida em que reina sobre a maior parte dos seres vivos, é o que garante a manutenção do ser de uma espécie.”. (pág.143)
E vai apresentar a seguinte reflexão:
“[…]Digamos que a espécie subsiste na forma de seus indivíduos. Nem por isso a sobrevivência do cavalo como espécie deixa de ter um sentido – cada cavalo é transitório, e morre. Com isto vocês percebem que a ligação do sexo com a morte, com a morte do indivíduo é fundamental.” (pág.143)
Afirmando para tanto que a mola da reprodução ocorre pela existência da divisão sexual – macho e fêmea que no registro biológico, “[…]se associa à diferença sexual, em forma de caracteres e funções sexuais secundárias.” (pág. 143). Entretanto nos mostra que o estruturalismo moderno nos coloca:
“[…]que é no nível da aliança, enquanto que oposta à geração natural, à linguagem biológica, que são exercidas as trocas fundamentais – no nível portanto do significante – e é aí que reencontramos as estruturas mais elementares do funcionamento social, a inscrever nos termos de uma combinatória.” (pág. 143). (1)
O que o leva a pensar se:
“[…]A integração dessa combinatória à realidade sexual faz surgir a questão de saber se não é mesmo por ali que o significante chegou ao mundo, ao mundo do homem.” (pág.143)
Para tanto, Lacan nos afirma a seguir:
“[…]é pela realidade sexual que o significante entrou no mundo – o que quer dizer que o homem aprendeu a pensar.” (pág.144)
Para isto, faz uma alusão a função do objeto a, indicando que há aí “[…]uma afinidade dos enigmas da sexualidade com o jogo do significante.” (Pág.144)
A seguir vai se perguntar para onde esse discurso vai, e responde:
“[…]vai nos interrogar se devemos considerar o inconsciente como uma remanescência dessa junção arcaica do pensamento com a realidade sexual.” (pág.145)
Segue nos mostrando que o que coloca para ser resolvido, é de difícil compreensão, e que precisamos contextualizar historicamente o que quer nos mostrar.
Para tanto, vai retomar o pensamento de Jung e sua divergência com Freud e o repudio que Jung fazia ao termo libido, buscando um termo mais neutro e referencia-se a energia psíquica.
Mostrando-nos que “[…]o que Freud entende presentificar na função da libido não é de modo algum uma relação arcaica, um mundo de acesso primitivo dos pensamentos […] A libido é a presença efetiva como tal, do desejo. É o que resta agora apontar do desejo – que não é substância, que aí está ao nível do processo primário, e que comanda o modo mesmo de nossa abordagem.” (pág.146)
E continua afirmando que é no nível da análise “[…]que se deve revelar o que é desse ponto nodal pelos qual a pulsação do inconsciente está ligada a realidade sexual. Este ponto nodal se chama desejo, e toda a elaboração teórica que persegui esses últimos anos vai lhes mostrar, ao passo a passo da clínica, como o desejo se situa na dependência da demanda – a qual, por se articular em significantes, deixa um resto metonímico que corre debaixo dela, elemento que não é indeterminado, que é uma condição ao mesmo tempo absoluta e impegável, elemento necessariamente em impasse, insatisfeito, impossível, desconhecido, elemento que se chama desejo. É isto que faz junção com o campo definido por Freud como da instância sexual no nível do processo primário.”. (pág.146)
Ao que irá asseverar que o resíduo último do efeito do significante no sujeito é a função do desejo.
Para tanto, vai assegurar que o “Desejo, é o cogito freudiano”. É por partir daí que Freud instituiu o essencial do processo primário, e vai nos dizer que o impulso se satisfaz essencialmente pela alucinação.
“[…]A dimensão do terceiro é essencial nessa pretensa regressão. Ela só pode ser concebida numa forma estritamente análoga ao que desenhei outro dia, no quadro, na forma da duplicidade entre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. Só a presença do sujeito que deseja, e que deseja sexualmente, nos traz essa dimensão da metáfora natural, por onde se decide a pretensa identidade da percepção.” (pág.147)
Lacan aqui vai colocar que Freud, sustenta a libido como o elemento essencial do processo primário. Afirmando que:
“[…]a dimensão de significação é absolutamente essencial de ser demarcada em toda alucinação para nos permitir sacar o de que se trata no princípio do prazer. E desde o ponto em que o sujeito deseja que a conotação da realidade é dada na alucinação. E se Freud opõe o princípio de realidade ao princípio do prazer, é justamente na medida em que a realidade é aí definida como dessexualizada.” (pág147)
Conquanto, assegura que não é possível falar de uma libido dessexualizada, mas que a abordagem da realidade comparte uma dessexualização, que Freud já colocava em 1911, quando no texto “Formulações sobre os dois Princípios do Funcionamento Mental”, teorizava sobre os dois princípios em que se reparte a eventualidade psíquica.
Não obstante, Lacan se pergunta o que quer dizer isto, e vai afirmar: “[…]que é na transferência que devemos ver inscrever-se o peso da realidade sexual.” (pág.147)
Para ilustrar isto, Lacan vai recorrer a topologia para nos mostrar na figura do oito interior e depois na faixa de Moebius – onde a superfície direita é contínua ao seu avesso, para nos mostrar que a libido, seria assim – algo que pertence as duas superfícies, que não se interrompem e são contínuas.
E assim vai afirmar:
“[…]Esta imagem nos permite figurar o desejo como lugar de junção do campo da demanda, onde se presentificam as síncopes do inconsciente, com a realidade sexual. Tudo isto depende de uma linha que chamaremos desejo, ligada à demanda e pela qual se presentifica, na experiência a incidência sexual.” (pág.149)
Vai, portanto, nos dizer que designa aí a instância da transferência e que o desejo que se trata aqui é o desejo do analista.
Segue no item três deste capítulo, dizendo que nos fará lembrar que a porta de entrada do inconsciente no horizonte de Freud, foi através da paciente que atendeu com Breuer, Anna O. – ou melhor Bertha Pappenheim, foi através deste caso que descobriu a transferência, e a entrada da sexualidade. Quando O., “[…]mostra as magnificas e dramáticas manifestações […]de uma gravidez que se qualifica de nervosa.” (pág.149)
Lacan vai nos dizer que:
“[…]Aí ela mostra o quê? – pode-se especular, seria preciso ainda não se precipitar sobre a linguagem do corpo. Digamos simplesmente que o domínio da sexualidade mostra um funcionamento natural dos signos. Neste nível, não são significantes, pois o falso-balão é um sintoma e, segundo a definição de signo, algo para alguém. O significante sendo coisa completamente diferente, representa um sujeito para outro significante.” (pág.147)
Assim, Lacan quer nos mostrar que o sintoma de Bertha é um signo – endereçado a Breuer – e representa algo para este. O que vem apresentar a falta de Bertha – e Lacan vem apontar para a questão do desejo, evocando a fórmula – O Desejo do homem, é o desejo do Outro – indicando aqui, e chamando nossa atenção para o desejo de Breuer – que como apontou Lacan estava encantado com sua paciente.
Levando Lacan a pontuar:
“[…]Mostro exatamente sua outra face, dizendo-lhe que é o desejo do analista.” (pág.150)
Sendo que é para isto que Lacan chama nossa atenção, nos chama – para esclarecer a função do desejo do analista.
NOTAS E REFERÊNCIAS
- Aqui Lacan está nos colocando novamente em questão, o pensamento desenvolvido por Claude Lévi-Strauss – 1949, em As Estruturas Elementares do Parentesco – Ed. Vozes – 2009.
