QUAL A LÓGICA DO FANTASMA?
Desejo iniciar este, agradecendo aos colegas André Ehrlich, Luis Henrique Sierakowski e Rozana Mazetto – por aceitarem o desafio de estudarmos juntos o Seminário XIV, A Lógica do Fantasma – estudo levado tão a sério e com tanto empenho.
A lógica do fantasma, me traz a questão de qual seria essa lógica.
Começamos, que o fantasma na sua dimensão simbólica, consiste em uma pequena história que obedece a certas regras e leis de construção que são as leis da linguagem.
Que o sujeito que constrói esse enredo – é o que um significante representa para outro significante. E sabemos que um significante não é nada senão por oposição a outro significante.
E, Lacan vai efetuar um deslocamento teórico – na questão do fantasma, da gramática para a lógica.
Para ele o fantasma é um axioma, que tem sua lógica e não uma gramática e, isto o leva para o matema do fantasma – $ <> a.
E o que é um axioma?
O axioma é algo posto no início, são frases que uma vez colocadas não se pode discutir, porque a partir delas se vão produzir verdades, falsidades e verificações. Antes delas não há nada. São o ponto de partida e o limite.
Assim o axioma fantasmático é uma criação significante, portanto, o fantasma tem uma significação de verdade.
Vale lembrar, que a significação é a possibilidade que um significante tem de engendrar significado.
Qual é a verdade que temos aqui, que está colocada de início, que antes dela não há nada, como nos diz Lacan?
Estamos aqui falando do sujeito barrado ($) que em seu inconsciente guarda uma verdade que é anterior a esse $.
Anterior ao sujeito barrado ($)?
Sim, anterior, antes de nos constituirmos como sujeito barrado ($), somos objeto para o Outro. Já na tópica do imaginário, no Seminário I, com o esquema ótico, Lacan nos mostra que o sujeito primeiro é objeto para o Outro.
Assim o suporte da verdade do sujeito é o objeto a.
Faz-se necessário ao sujeito, alienar-se na demanda do Outro e encontrar aí sua falta, para que este seja marcado pelo significante primeiro – traço unário – cicatriz narcísica, nos diz Lacan em algum lugar desse seminário, para separar-se, e aí poder entrar no circuito pulsional para assim fazer corpo, e ao adentrar no princípio do prazer – separar-se do gozo, circunscrevendo-o as bordas pulsionais que acontecem por efeito de um significante que se repete.
Para Lacan o corpo é o primeiro lugar onde se colocam as inscrições, o primeiro significante, as marcas, que engendram o nascimento do sujeito barrado ($).
É por isso que nos diz que o inconsciente é o discurso do Outro, o inconsciente é onde está gravado a verdade do sujeito, verdade que foi entalhada, antes do sujeito entrar na cadeia significante.
Assim essa verdade porta algo de Real, impossível de ser articulado na fala, e é aí que Lacan nos apresenta a Lógica do Fantasma, porque está ligada a questão do gozo que foi sulcado no sujeito antes mesmo deste se tornar sujeito barrado ($).
Para tanto, a questão do gozo que se mostra ao sujeito, é algo que este não consegue articular, apenas se apresenta de forma repetitiva e sintomática, sem este saber do que se trata.
Consequentemente podemos concluir que o fantasma vem proteger esse sujeito desse gozo anterior a sua formação, mas que ainda resta parcialmente, levando o sujeito a sua sintomatologia.
É por esta anterioridade lógica, que o sujeito já surge dividido, sendo o objeto a, a causa do sujeito. Lacan vai nos apontar para a incomensurabilidade do objeto a, enquanto objeto imaginário, pode ser qualquer um, ou tantos quantos forem os sujeitos. E nos chama a atenção para: que quando o objeto aponta para o sujeito, eles estão aí como objetos do desejo. Esse objeto enquanto causa do sujeito, traz a marca da verdade inconsciente, a qual leva o sujeito ao desejo e a verdade de seu desejo.
Lacan vai afirmar que é fundamentalmente da demanda que surge o desejo, em função disso aponta que o desejo é o desejo do Outro, pois o mesmo, é fruto da “demanda linguageira”.
Sendo assim, conclui-se que o fantasma porta uma significação de verdade.
Ao que Lacan vai se perguntar:
“[…] O que quer dizer quando digo que o fantasma é o papel de significação da verdade?” (p.448)
E nos responde que:
“[…] É que em verdade, a função do fantasma… quero dizer, […] que se dá a estrutura de tal ou qual neurose, que deverá sempre, no último termo, se inscrever nos registros que são os que dei, a saber, para a fobia, o desejo prevenido; para a histeria, o desejo insatisfeito; para a obsessão, o desejo impossível…” (448)
Asseverando que essa é a única função que se pode dar ao papel do fantasma na economia neurótica.
“[…] Na interpretação o fantasma não tem nenhum outro papel, deve ser tomado tão literalmente quanto possível, o que se tem a fazer, é encontrar em cada estrutura, a definir as leis de transformação que assegurarão a este fantasma, na dedução dos enunciados do discurso inconsciente, o “lugar de um axioma”.” (448)
Para finalizar este, vou pedir licença ao poeta compositor Vinicius de Moraes, para fazer uso de suas palavras, que podem nos mostrar o quanto o sujeito barrado está assujeitado ao seu axioma fantasmático.
“[…] O homem que diz “dou” não dá, porque quem dá mesmo não diz;
O homem que diz “vou” não vai, porque quando foi já não quis;
O homem que diz “sou” não é, porque quem é mesmo é “não sou”;
O homem que diz “tô” não tá, porque ninguém tá quando quer…”
Trabalho apresentado na Jornada de Carteis da Biblioteca Freudiana de Curitiba, realizado em março/2021.
