Lacan inicia este capítulo chamando nossa atenção para:
“[…] A arte de escutar equivale a do bem dizer.” (p.119)
Diz que isto divide a tarefa dos analistas: escutar e dizer – “[…] esperemos que estejamos perto de estarmos à altura dela.” (p.119)
Para tanto, anuncia que irá falar da transferência: que no sentido comum tem o significado de afeto e pode ser qualificada de negativa e positiva; sendo a transferência positiva chamada de amor.
Para a psicanálise isto é inteiramente aproximativo. Embora Freud tenha colocado a autenticidade do amor tal como ele se produz na transferência (1).
Quando Freud vai falar sobre a transferência em seu artigo, A dinâmica da Transferência (2) ele explicita as diferentes formas de apresentação clínica da transferência, na sua Conferência XXVII – Transferência – faz uma ampla explanação sobre o método com que opera o tratamento psicanalítico e aqui também descreve sobre a Neurose de Transferência. (3)
Lacan a seguir nos adverte que com a transferência negativa deve-se ser mais prudente, a mesma não deve ser identificada ao ódio. Pode-se empregar aí o termo ambivalência. Para concluir nos diz:
“[…]Diremos com mais justeza, que a transferência positiva é quando aquele de quem se trata, o analista no caso, pois bem, a gente o tem em boa consideração – negativo, está-se de olho nele.” (p.120)
Para em seguida nos dizer que há outro emprego deste termo, aqui fazendo alusão a neurose de transferência, que merece ser distinguido:
“[…] quando dizemos que ela estrutura todas as relações particulares a esse outro que é o analista, e que o valor de todos os pensamentos que gravitam em torno dessa relação deve ser conotado de um signo de reserva particular. Donde a expressão – que é sempre colocada numa nota como uma espécie de parêntese, de suspensão, e mesmo de suspeita, quando é introduzida a propósito da conduta de um sujeito – ele está em plena transferência. Isto supõe que todo o seu modo de apercepção está reestruturado sobre o centro prevalente da transferência.” (p.120)
Para tanto, nos diz que não podemos parar aí nessa conceitualização freudiana, e irá discorrer sobre o conceito de transferência, ampliando seu entendimento:
“[…] Este conceito é determinado pela função que tem numa práxis. Este conceito dirige o modo de tratar os pacientes. Inversamente, o modo de tratá-los comanda o conceito.” (p.120)
Segue pontuando que: “[…] devemos considerar a transferência como um produto da situação analítica, podemos dizer que esta situação não poderia criar o fenômeno todo, e que, para produzi-lo, é preciso que haja, fora dela, possibilidades já presentes às quais ela dará composição talvez única.” (p.120)
Prossegue nos dizendo que para abordar um conceito tão crucial à teoria psicanalítica não é possível fazê-lo de forma isolada, faz-se necessário abordar conceitos como o de inconsciente, repetição e, também o de pulsão e ainda nos coloca como é crucial trabalhar a questão da Presença do Analista.
Presença do analista, pontua que é uma manifestação do inconsciente, pois o movimento pulsátil deste, ocorre provocado por esta presença.
“[…] Indiquei, de modo maiêutico, erístico, que era preciso ver no inconsciente os efeitos da fala sobre o sujeito – na medida em que esses efeitos são tão radicalmente primários que são propriamente o que determina o estatuto do sujeito como sujeito.” (p.121)
Lacan vai pontuar, que já no Relatório de Roma (4), coloca uma nova forma de compreender o conceito de inconsciente, indo além de Freud – “[…] procedi uma nova aliança com o sentido da descoberta freudiana.” E aí nos diz: “[…] o inconsciente é a soma dos efeitos da fala, sobre um sujeito, nesse nível em que o sujeito se constitui pelos efeitos do significante.” (p.122)
No capítulo II deste seminário, Lacan afirma que: “[…] O inconsciente é estruturado como uma linguagem.” (p.25) E no Discurso de Roma nas páginas 260/61, irá marcar o seguinte:
“[…] O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na maioria das vezes, já está escrita em outro lugar. Qual seja:
– nos monumentos: e esse é meu corpo, isto é, o núcleo histérico da neurose em que o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem e se decifra como uma inscrição que, uma vez recolhida, pode ser destruída sem perda grave;
– nos documentos de arquivo, igualmente: e esses são as lembranças de minha infância, tão impenetráveis quanto eles, quando não lhes conheço a procedência;
– na evolução semântica: e isso corresponde ao estoque e às acepções do vocabulário que me é particular, bem como ao estilo de minha vida e a meu caráter;
– nas tradições também, ou seja, nas lendas que sob a forma heroicizada veiculam minha história;
– nos vestígios, enfim, que conservam inevitavelmente as distorções exigidas pela reinserção do capítulo adulterado nos capítulos que o enquadram, e cujo sentido minha exegese restabelecerá.”
É isto o inconsciente, pontua Lacan, e não podemos deixar de nos ater as suas causas, para tanto vai colocar: “[…] Isto indica que a causa do inconsciente – e vocês bem veem que aqui o termo causa deve ser tomado em sua ambiguidade, causa a ser sustentada, mas também função da causa no nível do inconsciente – essa causa deve ser fundamentalmente concebida como a causa perdida. E é a única chance que temos de ganhá-la.” (p.123)
Aqui vai colocar em relevo o conceito de repetição; pois aí encontramos o recurso do inconsciente em relação a esse encontro sempre evitado, da chance falhada.
“[…] A função de ratear está no centro da repetição analítica. O encontro é sempre faltoso – é isto que constitui, do ponto de vista da tiquê, a vaidade da repetição, sua ocultação construtiva.” (p.123)
Para continuar, nos diz que o conceito de repetição coloca o analista frente ao dilema: “[…] de ou assumir pura e simplesmente nossa implicação como analista no caráter erístico da discordância de toda exposição de nossa experiência – ou de polir o conceito no nível de algo que seria impossível de objetivar, se não de uma análise transcendental da causa.” (p.123)
Segue nos dizendo que em relação a causa, teríamos que sublinhar a fórmula clássica: “ablata causa tollitur efectus” – levantada a causa cessam os efeitos.
Entretanto, Lacan nos leva a refletir sobre isso que afeta o sujeito, e que causa o inconsciente, esse impossível que seria necessário subjetivar, melhor dizendo, trazer para o simbólico, sendo que essa é a função da transferência.
“[…]Aí está quem nos leva a função da transferência. Pois esse indeterminado de puro ser que não tem qualquer acesso à determinação, essa posição primária do inconsciente que se articula como constituído pela indeterminação do sujeito – é a isto que a transferência nos dá acesso, de maneira enigmática. É um nó górdio (5), que nos conduz ao seguinte – o sujeito procura ter certeza. E a certeza do próprio analista concernente ao inconsciente não pode ser extraída do conceito de transferência.” (p.124)
Pontua que no conceito de transferência é surpreendente sua multiplicidade, as quais não irá rever aqui. E segue advertindo novamente – que não devemos deslizar o conceito de transferência para o conceito de repetição.
“[…] Não esqueçamos que quando Freud o representa para nós, ele nos diz – O que não pode ser rememorado se repete na conduta. Essa conduta, para revelar o que ela repete, é entregue a reconstrução do analista. (p.124)
Seguindo Lacan, entende-se aqui que o inconsciente surge aí nessa hiância. Nesse sentido ele nos aponta, que o que aparece é um achado. Para tanto, nos diz, que: O inconsciente é o discurso do Outro. O que chamamos de grande Outro (A), é o lugar da fala, virtualmente o lugar da verdade. De qual verdade estamos falando aqui? Da verdade do sujeito que está inconsciente.
Lacan se pergunta a seguir, se estará aí o ponto de aparição do conceito de transferência.
“[…] Esse momento em Freud, não é simplesmente o momento – limite que corresponderia ao que designei como o momento do fechamento do inconsciente, pulsação temporal que o faz desaparecer em um certo ponto de seu enunciado. Freud quando conduz a função da transferência tem mesmo o cuidado de marcar esse momento como a causa do que chamamos transferência. O Outro, latente ou não, está, desde antes, presente na revelação subjetiva. Ele já está lá, quando algo começou a se livrar do inconsciente.” (p.125)
Para tanto Lacan pontua:
“[…] A interpretação do analista não faz mais que recobrir o fato de que o inconsciente […], jogo do significante – em suas formações – sonho, lapso, chiste, ou sintoma – já procedeu por interpretação. O Outro, o grande Outro (A) já está lá, em toda abertura por mais fugidia que ela seja, do inconsciente.” (p.125)
Consequentemente Lacan deixa entrever aqui o que Freud já colocava sobre a transferência, é está o motor da análise, e está depende da condução do analista. E o analista tem que levar em conta que a parte consciente do sujeito, ou seja, o eu – é a parte que fecha a porta, o postigo, do inconsciente e que: “[…] a bela com quem queremos falar está lá detrás, que só pede para reabri-los, os postigos. É por isso que é neste momento que a interpretação se torna decisiva, pois é à bela que temos que nos dirigir.” (p.126)
Com isto podemos compreender o que Lacan nos diz quando fala que o inconsciente não resiste, ao contrário ele insiste, e é função do analista, através de sua interpretação e atos analíticos, se dirigir a bela.
Assim Lacan volta a reafirmar:
“[…] O inconsciente é o discurso do Outro. Ora o discurso do Outro, que se trata de realizar, o do inconsciente, ele não está do lado de lá do fechamento, ele está do lado de fora. É ele que, pela boca do analista, apela à reabertura do postigo.” (p.126)
Lacan encerra este capítulo asseverando o seguinte:
“[…] Mas isto não é tudo o que tenho para lhes mostrar, pois não é isto o que causa radicalmente o fechamento que comporta a transferência. O que a causa, e que será a outra face do nosso exame dos conceitos de transferência – reportando-nos ao ponto de interrogação inscrito na parte esquerda, parte da sombra, reservado – é o que designei pelo objeto a.” (p.128)
NOTAS E REFERÊNCIAS
- Freud, Sigmund – 1915 – Observações sobre o amor transferencial – Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III – Vol. XII – Obras completas – Edição Standard Brasileira – Imago – 1996 – p.175.
- Freud, Sigmund – 1912 – A dinâmica da transferência – Vol. XII – Obras completas – Edição Standard Brasileira – Imago – 1996 – p.108.
- Freud, Sigmund – 1917 – Conferência XXVII – Transferência – Vol. XVI – Obras completas – Edição Standard – Imago – 1996 p.445/446.
- Lacan, Jacques – Escritos – Jorge Zahar Editores – 1998 – Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise – Relatório do Congresso de Roma – Realizado no Instituto de Psicologia da Universidade de Roma – 26e 27/9/1953.
- Nó-górdio: é uma lenda que envolve o rei da Frígia (Ásia Menor) e Alexandre o Grande. É comumente usada como metáfora de um problema insolúvel (desatando um nó impossível) resolvido facilmente por um ardil astuto ou por “pensar fora da caixa”.
Conta-se que o rei da Frígia morreu sem deixar herdeiro e que, ao ser consultado, o oráculo anunciou que o sucessor chagaria à cidade num carro de bois. A profecia foi cumprida por um camponês, de nome Górdio, que foi coroado. Para não esquecer de seu passado humilde ele colocou a coroça, com a qual ganhou a coroa, no templo de Zeus. E a amarrou com um enorme nó a uma coluna. O nó era, na prática, impossível de desatar e por isso ficou famoso.
Górdio reinou por muito tempo e quando morreu, seu filho Midas assumiu o trono. Midas expandiu o império, mas não deixou herdeiros. O oráculo foi ouvido novamente e declarou que quem desatasse o nó de Górdio dominaria o mundo.
Quinhentos anos se passaram sem ninguém conseguir realizar esse feito, até que em 334 a.C. Alexandre, o Grande, ouviu essa lenda ao passar pela Frígia. Intrigado com a questão, foi até o templo de Zeus observar o feito de Górdio. Após muito analisar, desembainhou sua espada e cortou o nó. Lenda ou não o fato é que Alexandre se tornou senhor de toda a Ásia Menor poucos anos depois. (Fonte Wikipédia)
6. Os negritos neste texto são de nossa autoria.
