VII – A ANAMORFOSE


Do fundamento da consciência
Privilégio do olhar como objeto a
Ótica dos cegos
O falo no quadro

Lacan inicia esse capítulo com os versos de Aragon, os mesmos usados no início do capítulo II deste seminário, dizendo que não sabia que daria tanto desenvolvimento ao olhar, e que foi a apresentação do conceito de repetição em Freud que o levou a isto, sendo que a obra de Ponty, recém-publicada – O Visível e o Invisível (1), foi um encontro feliz, pois o ajuda a mostrar como na perspectiva do inconsciente, podemos situar a consciência.

A seguir nos aponta que na trama conceitual tecida por Freud, há uma reserva que marca o fato da consciência no discurso deste.

Antes de voltar a explanação, diz ter sido mal-entendido quando usou o termo tíquico, que se tratava do adjetivo de tiquê, assim como psíquico é o adjetivo de psiquê.

“[…] Não foi sem intenção que me servi dessa analogia no núcleo da experiência da repetição, pois para toda concepção do desenvolvimento psíquico tal como a análise o esclareceu o fato tíquico é central. É mesmo em relação ao olho, em relação a entíquia, ou a distíquia, encontro feliz, encontro infeliz, que meu discurso de hoje se ordenará também.” (p.80)

Via-me ver-me. Diz que aqui lidamos com o filósofo – fazendo aqui uma referência a obra de Ponty – “[…] que percebe algo que é um dos correlatos essenciais da consciência em sua relação com a representação e que se designa como vejo-me ver-me.” (p.80)

Perguntando-se a seguir, que evidência podemos ter dessa fórmula e correlacionando está ao cogito cartesiano – pelo qual o sujeito se saca pelo pensamento.

Reflete a seguir que: “[…] O que isola essa apreensão do pensamento por si mesmo é uma espécie de dúvida, que chamamos de dúvida metódica, que recai sobre tudo aquilo que poderia dar apoio ao pensamento na representação.” (p.80).

Mas o que acontece com o vejo-me ver-me? Levando-nos a pensar com, o esquento-me para me esquentar, aí colocando uma referência ao corpo como corpo, há uma sensação de calor, uma percepção que se difunde e me localiza no corpo.

Assevera, no entanto que:

“[…] Ao passo que em vejo-me ver-me, não é de modo algum sensível que eu seja, de modo análogo, tomado pela visão.” (p.80)

Para tanto, anuncia que os fenomenólogos articularam, com precisão, porém de forma confusa, que: “[…] é inteiramente claro que vejo fora, que a percepção não está em mim, que ela está sobre os objetos que apreende. E, no entanto, percebe o mundo numa percepção que parece depender da imanência do vejo-me ver-me. O privilégio do sujeito parece estabelecer-se aqui por essa redução reflexiva bipolar que faz com que, uma vez que percebo, minhas representações me pertencem.” (p.81)

Indo a seguir nos mostrar que a grande armadilha a que a filosofia nos leva é a de elidir o inconsciente psicanalítico, para colocar-nos aqui que, […] a consciência em sua ilusão do ver-se vendo-se, encontra seu fundamento na estrutura em reviravolta do olhar.” (p.82)

Antes de dar continuidade ao que Lacan nos traz, vou dar voz a Quinet – 2002, para tentar esclarecer o que Lacan quis nos mostrar até aqui e para onde ele nos levará:

“[…] Com o postulado do olhar não mais como apanágio do sujeito da consciência e do conhecimento, mas como objeto da pulsão, a psicanálise rompe com a tradição filosófica que não distingue o olhar da visão. O olhar para a filosofia é uma qualidade do sujeito: seja um atributo visual, seja uma faculdade noética. O olhar destacado por Lacan como o objeto específico da pulsão escópica descrita por Freud, não faz parte do sujeito e sim dos objetos, sem se encontrar entre aqueles do mundo sensível. Ele tem apenas uma consistência lógica: enquanto objeto ligado ao gozo inapreensível pelo eu, promove o brilho, o interesse, o fascínio do mundo da visão.”

Lacan segue questionando:

Mas, o que é o olhar?

Diz que irá partir do ponto de nadificação, em que se marca no campo da redução do sujeito, uma rachadura, sua divisão psíquica.

“[…] É aqui que eu adianto que a importância que o sujeito dá a sua própria esquize está ligada ao que a determina – isto é, um objeto privilegiado, surgido de alguma separação primitiva, de alguma automutilação induzida pela aproximação mesma do real, cujo nome, em nossa álgebra, é o objeto a.” (p.83)

E é na relação escópica que, “[…] o objeto de que depende a fantasia à qual o sujeito está apenso numa vacilação, é o olhar.” (p.83)

O fato de o sujeito se desconhecer nessa dependência é estrutural.

“[…] Esquematizemos logo o que queremos dizer. Uma vez que o sujeito tenta acomodar-se a esse olhar, ele se torna, esse olhar, esse objeto punctiforme, esse ponto de ser evanescente, com o qual o sujeito confunde o seu próprio desfalecimento. Também, de todos os objetos nos quais pode reconhecer a dependência em que está no registro do desejo, o olhar se específica como inapreensível. É por isso que ele é, mas que qualquer outro objeto, desconhecido, e é talvez por essa razão também que o sujeito consegue simbolizar com tanta felicidade seu próprio traço evanescente e punctiforme na ilusão da consciência de ver-se vendo-se, em que o olhar se elide.” (p.83)

Isto o leva ao questionamento: se o olhar é esse avesso da consciência, como vamos tentar imaginá-lo?

Para responder recorre a Sartre na sua obra – O ser e o nada (2), “[…] O olhar, tal como concebe Sartre, é o olhar pelo qual sou surpreendido – surpreendido na medida em que ele muda todas as perspectivas, as linhas de força, de um mundo, que ele ordena, do ponto de nada onde estou, numa espécie de reticulação raiada dos organismos. Lugar da relação do eu, sujeito nadificante, ao que me rodeia, o olhar teria aí um tal privilégio que chegaria até a me fazer escotomizar, eu que olho, o olho daquele que me olha como objeto. No que estou sob o olhar, escreve Sartre, não vejo mais o olho que me olha, e se vejo esse olho, é então esse olhar que desaparece.” (p.83)

Ao colocar a análise sartriana do olhar se questiona se ela é justa. Enfaticamente, nos diz que não é verdade que, “[…] quando estou sob o olhar, quando peço um olhar, quando o obtenho, não o vejo mais como olhar.” (p.84)

“[…] O olhar se vê – precisamente esse olhar de que fala Sarte, esse olhar que me surpreende, e me reduz a alguma vergonha, pois que é este o sentimento que ele esboça como o mais acentuado. Esse olhar que encontro – isto pode ser destacado no texto mesmo de Sartre – de modo algum é um olhar visto, mas um olhar imaginado por mim no campo do Outro.” (p.84)

Para finalizar esse tópico, indaga que olhar é esse que surpreende na função de voyeur e leva ao sentimento de vergonha, de que olhar se trata.

“[…] O olhar de que se trata é mesmo presença de outrem enquanto tal. Mas é de se dizer que, originalmente, é na relação de sujeito a sujeito, na função da existência de outrem como me olhando, que percebemos o de que se trata no olhar? Não estará claro que o olhar só intervém na medida em que não é o sujeito nadificante, correlativo do mundo da objetividade, que se sente surpreendido, mas o sujeito se sustentando numa função de desejo?” (p.84)

Para finalizar este tópico, o faz com a seguinte interpelação:

“[…] Não será justamente porque o desejo se instaura aqui no domínio da voyura que podemos escamoteá-lo?” (p.84)

Inicia o item três sustentando:

“[…] Podemos percebê-lo, esse privilégio do olhar na função do desejo, deixando-nos correr, se assim posso dizer, ao longo das veias por onde o domínio da visão foi integrado ao campo do desejo.” (p.84)

Aqui Lacan vai nos levar através da arte, a ver como o sujeito apreende ao olhar, o desejo do Outro e apreende-se nesse desejo.

Para tanto fara referência, e diz que é para aqueles que queiram ir mais adiante ao que ele nos traz – cita o livro do historiador da arte Jurgis Baltrusaitis – Anamorfoses, publicado pela primeira vez em 1977.

Diz que tem feito uso da função da anamorfose (3), pois a considera uma estrutura exemplar para trabalhar a questão da visão, e nos faz um breve relato do que seja a anamorfose:

“[…] A visão se ordena de um modo que podemos chamar, em geral, a função das imagens. Esta função se define por uma correspondência ponto a ponto de duas unidades no espaço. Quaisquer que sejam os intermediários óticos para estabelecer sua relação, quer uma imagem seja virtual, quer seja real, a correspondência ponto a ponto é essencial. Tudo que é do modo da imagem no campo da visão é portanto redutível a este esquema tão simples que permite estabelecer a anamorfose, quer dizer, à relação a uma imagem enquanto que ligada a uma superfície, com um certo ponto que chamaremos ponto geometral. Pode chamar-se imagem o que quer que seja que for determinado por este método – no qual a linha reta representa o seu papel que é de ser o trajeto da luz.” (p.85)

Lacan adverte que a questão da visão vai muito além, nos leva a algo de simbólico da função da falta e da aparição do fantasma fálico.

Para tornar apreensível o que vem tratando, fez circular na plateia o quadro, Embaixadores (4) e pergunta o que se vê.

Antes de continuar a trabalhar o que Lacan noz traz, abro aqui um parêntese para assinalar, que o quadro – Os embaixadores, está na capa desse seminário – o qual marca o rompimento de Lacan com a IPA. Não é à toa que este quadro é escolhido, para a capa deste seminário, pois o mesmo, representa o momento – Páscoa de 1533 – em que a Inglaterra se separa da Igreja Católica e estabelece a Igreja Anglicana, tendo como chefe o seu monarca, e não o papa. A esquerda do quadro temos a figura do embaixador Jean Dinteville e a sua direita o bispo Georges de Selve, enviados pelo rei Henrique VIII da Inglaterra a Roma para proteger seus interesses, a missão específica dos embaixadores falhou, e a cisão entre a Inglaterra e a Igreja ocorre.  

Ao dar sequência a análise do quadro, Lacan aponta que entre os dois personagens encontram-se objetos que figuram na pintura da época – os símbolos da vanitas (5), “[…] visando tanto as ciências quanto as artes, e esses objetos (6) são todos simbólicos das ciências e das artes como eram na época agrupados no trivium e no quadrivium (7).

E nos chama a atenção para o objeto estranho pairando inclinado, à frente dos dois personagens do quadro, somente afastando-se do quadro é que se vai perceber a forma anamórfica – um crânio de caveira.

Para tanto, vai asseverar que:

“[…] Holbein nos torna aqui visível algo que não é outra coisa senão o sujeito como nadificado – nadificado numa forma que é, falando propriamente, a encarnação imajada do menos fi da castração, a qual centra para nós toda a organização dos desejos através do quadro das pulsões fundamentais.” (p.88)  

Segue para concluir que é preciso ir mais longe para procurar a função da visão.

“[…] Veremos então esboçar-se, a partir dela, não o símbolo fálico, o fantasma anamórfico, mas o olhar como tal, em sua função pulsátil, explosiva e estendida, como ela o é nesse quadro.

E ainda nos faz um alerta de que esse quadro, como todo quadro, é uma armadilha de olhar.

“[…] Em qualquer quadro que seja, é precisamente ao procurar o olhar em cada um de seus pontos que vocês o verão desaparecer. É isso que eu tentarei articular da próxima vez.” (p.88)

NOTAS E REFERÊNCIAS

1) Merleau-Ponty, Maurice – O visível e o invisível – Ed. Perspectiva/2007

2) Sartre, Jean Paul – O ser e o nada – Ensaio de ontologia fenomenológica – E. Vozes/2007 – Capítulo I – A existência do outro – Item IV – O olhar.

3) Anamorfose: representação de figura (objeto ou cena), de maneira que, quando observada frontalmente, parece distorcida ou mesmo irreconhecível, tornando-se legível quando vista de um determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso de lentes especiais ou de um espelho curvo.

Dunker (2008) vai falar da anamorfose como a separação entre visualidade e o olhar pode ser apreendida em certas estratégias de composição. Nela o objeto é apresentado em uma combinação de perspectivas de tal modo que a luz e geometria se separam. E vai concluir que: “[…] nesta diferença entre ver e olhar reside uma das teses mais interessantes desenvolvidas por Lacan. Seu argumento é de que um quadro deve ser considerado como uma espécie de armadilha para o olhar. O sujeito para apreender a imagem, deve deslocar-se em uma dada distância da tela.  Nesta posição ele constrói o caminho da perspectiva proposta pelo quadro, as imagens ganham forma, o espaço se organiza segundo uma geometria que permite incluir o ponto de vista do pintor.

4) Os embaixadores – 1533. Óleo sobre madeira – 207×210 cm. Encontra-se na National Gallery em Londres. Hans Holbein (1497/1543) pintor alemão, mestre do retrato no renascimento.

5) Vanitas – significa vaidade, futilidade ou inutilidade, isto é, a inutilidade dos bens e atividades terrenas.

Vanitas vanitatum omnia vanitas.

Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

6) Os objetos entre os dois personagens, representam na prateleira superior os céus; na prateleira inferior o mundo; o crânio da caveira é a representação da morte. Podemos observar os seguintes objetos:  

– Globo terrestre.

– Globo celestial;

– Adaga com inscrição;

– Relógio de sol cilíndrico;

– Mostrador equinocial universal/quadrante;

– Relógio de poliedro;

– Livro aberto: livro dos salmos luterano;

– Livro fechado: de aritmética;

– Alaúde com corda quebrada;

– Crucifixo oculto no canto superior esquerdo;

– Tapete do século XVI da anatólia com grandes medalhões;

– No chão, anamorfose – crânio de caveira, representando a morte.

A natureza morta, que se vê no quadro – vários objetos meticulosamente pintados com fins simbólicos.

7) Trivium era o nome dado na idade média ao conjunto de três matérias ensinadas nas universidades no ínicio do percurso educativo: gramática, dialética e retórica. O Trivium representa três das sete artes liberais, as restantes quatro formam o quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música.


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