Esquize do sujeito
Facticidade do Traumatismo
Maurice Merleau-Ponty
A tradição filosófica
O mimetismo
O onivoyeur
No sonho isso mostra
Lacan inicia este capítulo falando da Wiederholung – REPETIÇÃO (1), acentuando sua referência etimológica, isto é, originária das palavras haler e sirgar (rebocar). Com a qual tenta enlaçar a Zwang – COMPULSÃO; para nos dizer que aí temos uma carta forçada.
“[…] Se o sujeito é o sujeito do significante – determinado por ele, podemos imaginar a rede sincrônica de tal modo que ela dê, na diacrônia, efeitos preferenciais” (p.69)
Para tanto afirma que é a estrutura da rede de significantes que está implicada nos retornos, afirmando que: […]é mesmo por automatismo que traduzimos o Zwang da Wiederholungszwang, Compulsão a Repetição.
Para seguir no item um enfatizando que nos monólogos infantis – podemos antever aqui referência ao Fort-Da, são jogos sintáticos que saem do campo pré-consciente e constituem – a cama da reserva inconsciente.
“[…] A sintaxe, exatamente, é pré-consciente. Mas o que escapa ao sujeito, é que sua sintaxe está em relação com a reserva inconsciente. Quando o sujeito conta sua história, age, latente, o que comanda essa sintaxe, e a faz cada vez mais cerrada. Cerrada em relação a quê? – ao que Freud desde o começo de sua descrição de resistência psíquica, chama um núcleo.” (p.70)
A que núcleo está se referindo Lacan?
Um núcleo traumático, o qual deve ser designado como da ordem do Real.
Sendo necessário distinguir a resistência do sujeito, a qual implica um eu suposto e uma resistência do discurso a qual provoca o fechamento em torno do núcleo.
Apontando que dá última vez que abordou a questão da repetição o fez através do sonho que exprime “[…] o mais íntimo da relação do pai ao filho, e que vem a surgir, não tanto nessa morte quanto no fato de ela estar mais além, no seu sentido de destino.” (p.70)
Fazendo-nos vislumbrar a tiquê – o mal encontro, que faz surgir a angústia e o despertar do sujeito.
Para em seguida nos alertar que o que fecha, que se repete, e o sentido velado é o que nos conduz a Pulsão. Para nos alertar que não tomemos a Repetição pela Transferência.
“[…] O justo conceito de repetição deve ser obtido numa outra direção que não podemos confundir com o conjunto dos efeitos da transferência.” (p.71)
Mas, nos alerta que a transferência pode nos conduzir ao núcleo da repetição.
“[…] Por isso é que é necessário fundar primeiro essa repetição na esquize mesma que se produz no sujeito com respeito ao encontro. Essa esquize constitui a dimensão característica da descoberta e da experiência analítica, que nos faz apreender o Real, em sua incidência dialética, como originalmente mal-vindo. É por isso, precisamente, que o Real é, no sujeito, o maior cúmplice da pulsão – à qual só chegaremos por último, porque, só percorrido, esse caminho nos poderá conceber do quê ele retorna.” (p.71)
A seguir ao se perguntar: Por que a cena primitiva é tão traumática, segue apontando e questionando o que já está colocado teoricamente:
– Porque ela acontece muito cedo ou muito tarde na vida do sujeito;
– Porque o sujeito encontra nela prazer demasiado, causalidade traumatizante do obsessivo;
– Porque o sujeito encontra nela prazer – de menos – causalidade traumatizante da histeria.
Se essa cena primitiva é tão libidinal porque o sujeito não desperta?
Porque essa cena primitiva leva o sujeito a distiquia, ao mal encontro – a tique, encontro com o Real?
Lacan vai asseverar que a cena primitiva é um fato factício, que nos apresenta uma relação fundamental à sexualidade.
Na parte dois deste capítulo segue nos pontuando que está a pensar o caminho do sujeito. Dizendo que esse caminho segue a trilha do traumatismo reflexo de facticidade (2).
Também fará menção a Maurice Merleau-Ponty (03/1908 – 05/1961), e ao seu livro – O visível e o invisível, que está sendo publicado postumamente por Claude Lefort (3), dizendo-o terminal e inaugural sobre a fenomenologia da percepção, e que este dá um passo à frente na fenomenologia do visual com o qual Lacan inicia a falar sobre o olhar e o campo escópico.
“[…] O olhar só se nos apresenta na forma de uma estranha contingência simbólica do que encontramos no horizonte e como ponto de chegada de nossa experiência, isto é, a falta constitutiva da angústia da castração. O olho e o olhar, está é para nós a esquize na qual se manifesta a pulsão ao nível do campo escópico.” (p.74)
Quinet – 2002 (4) vai pontuar que: “[…] a psicanálise descobre a libido de ver e o objeto olhar como manifestação da vida sexual. Lá onde estava a visão, Freud descobre a pulsão.”
Ao que Lacan vai colocar que na nossa relação às coisas – campo das ideias e campo da representação – algo escorrega, passa, se transmite de piso para piso, para ser sempre nisso em certo grau excluído – é isso que se chama olhar.
Recorremos a Quinet – 2002 (5), para compreendermos a que Lacan esta se referindo: A pulsão escópica não encontra apoio em uma demanda, como as pulsões oral e anal – no objeto oral há uma demanda ao outro; e no objeto anal há uma demando do outro, ambos estão escorados numa função fisiológica. Não há fase escópica no desenvolvimento libidinal – a pulsão escópica constitui a libido, e o desejo – o olhar marca o desejo ao outro – eis porque a pulsão escópica é paradigmática da pulsão sexual. Ela confere ao olho a função háptica (6) de tocar com o olhar, de despir, de acariciar com os olhos. O campo visual é ótico, certo, mas a pulsão sexual o torna háptico.
Lacan nos leva ao trabalho de Callois (7) em Medusa e Companhia, no qual descreve de maneira magnifica um daqueles fenômenos miméticos: o ocelo não fascina tanto pela sua semelhança com os olhos como pela sua forma de círculos concêntricos de cores contrastadas. Trata-se, portanto, na sua opinião, de uma estrutura: é a estrutura do círculo que é capaz de ter uma ação sobre o organismo do outro.
Isso vai levar Lacan a se perguntar:
Dito de outro modo, não devemos, quanto a isto, distinguir a função do olho da função do olhar?
Assim nos leva a olhar para a função – da mancha. Dizendo que este exemplo marca a preexistência, ao visto, de um dado-a-ver.
“[…] Se a função da mancha é reconhecida em sua autonomia e identificada a do olhar, podemos procurar sua inclinação, seu fio, seu traço, por todos os estágios da constituição do mundo no campo escópico. Percebemos então que a função da mancha e do olhar é ali ao mesmo tempo o que o comanda mais secretamente e o que escapa sempre à apreensão dessa forma da visão que se satisfaz consigo mesma imaginando-se como consciência.” (p.75)
Aqui Lacan vai nos trazer a questão da pulsão escópica, mostrando-nos que a consciência pode se revirar sobre si mesma, tal qual Diana e Acteón (8), vendo-se ver-se, operando aí uma evitação da função do olhar.
É aí que a experiência analítica colocou para o sujeito a questão do narcisismo (9), referenciado à imagem especular.
Somos seres olhados no espetáculo do mundo, nos diz Lacan.
“[…] O que nos faz consciência nos institui, do mesmo golpe, como speculum mundi. Não haverá satisfação em estar sob esse olhar de que eu falava ainda há pouco, […] esse olhar que nos discerne e que, de saída, faz de nós seus olhados, mas sem que isto se mostre?” (p.76)
A seguir Lacan se questiona sobre o que acontece no estado de vigília, quando há a elisão do olhar, e nos diz que aí isso se mostra:
“[…] o fechamento do que é contemplado no estado de vigília e, também o caráter de emergência, de contraste, de mancha, de suas imagens, a intensificação de suas cores – que nossa posição no sonho é, no fim das contas, a de sermos fundamentalmente aquele que não vê.” (p.76)
E nos reporta para o sonho de Chuang-Tsé: – Conta a lenda que o sábio taoísta Chuang-Tsé, ao dormir, sonhou ser uma borboleta, mas ao acordar se perguntou: será que eu era antes Chuang-Tsé sonhando ser uma borboleta ou sou agora uma borboleta adormecida, sonhando ser Chuang-Tsé?
“[…] O que quer dizer isto? Quer dizer que ele vê a borboleta em sua realidade de olhar. O que são essas figuras todas, esses desenhos todos, todas essas cores? Senão esse dar-a-ver gratuito em que se marca para nós a primitividade da essência do olhar.” (p.77)
“[…]É por isso que a borboleta pode – se o sujeito não é Chuang-Tsé, mas o homem dos lobos (10) – lhe inspirar o terror fóbico de reconhecer que o batimento das asinhas não é tão afastado do batimento da causação, da ranhura primitiva queimando seu ser atingido, pela primeira vez, pela marca do desejo.” (p.77)
Para finalizar esse capítulo, Lacan adianta que da próxima vez irá nos introduzir, ao essencial da função escópica.
“[…] O olhar pode conter em si mesmo o objeto a da álgebra lacaniana, no qual o sujeito vem a fracassar, e o que específica o campo escópico e engendra a satisfação que lhes é própria, é que lá, por razões de estrutura, a queda do sujeito fica sempre despercebida, pois ela se reduz a zero. Na medida em que o olhar, enquanto objeto a, pode vir a simbolizar a falta central expressa no fenômeno da castração, e que ele é objeto a reduzido, por sua natureza, a uma função punctiforme, evanescente – ele deixa o sujeito na ignorância do que há para além da aparência – essa ignorância tão característica de todo o progresso do pensamento nessa via constituída pela pesquisa filosófica.” (p.77)
NOTAS E REFERÊNCIAS
1. A Repetição é um dos conceitos principais que aparece em Freud, quando este elabora sua segunda teorização do aparelho psíquico, introduzindo a Pulsão de Morte.
Em 1914, em “Recordar, Repetir e Elaborar”, Freud começa a elaborar o conceito de Repetição, pois descobre que há um limite para a rememoração e os pacientes colocam cada vez mais em ato, na sua vida todo tipo de coisas.
Freud descobre que o que não pode ser rememorado retorna de outra forma, por meio da Repetição, algo se repete na vida do sujeito, sem que ele o perceba.
“O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o pela atuação, isto é, atua-o. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação, repete-o sem, naturalmente, saber o que está repetindo.”
A Repetição dá acesso à compreensão das condutas de fracasso, dos argumentos repetitivos aos quais estão presos os sujeitos e que lhes dão a sensação de serem joguetes nas mãos de um destino perverso. Em seu texto de 1916 – “Alguns tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Psicanalítico” no capítulo II, fala dos “Arruinados pelo Êxito”, chega à conclusão de que o fracasso representa, para o sujeito, o “preço a ser pago”, o tributo exigido por uma culpa subjacente. Demonstrando que as condutas repetitivas de Fracasso eram, ao mesmo tempo, uma maneira de suportar o ônus da culpa e uma prova de que esta última não se contentava com isso, pois exigia novos fracassos.
Isso revelava uma função particular da Repetição, a de pagar por uma culpa subjetiva, reduzindo assim a sua carga, sem por isso regulá-la.
Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud esclarece a função geral da Repetição, o que o leva a segunda tópica do aparelho psíquico e a teorização da Pulsão de Morte.
Para Freud, a Repetição é, pois consequência do trauma, uma tentativa inútil de anulá-lo e, também uma forma de lidar com ele, levando o sujeito a um outro registro, diferente do prazer, pois o que ele repete não tem correspondência com qualquer desejo.
É a Repetição que vai servir de fundamento para explicar a Pulsão de Morte, aponta Garcia-Roza, “…algo mais primitivo, mais elementar e mais pulsional que o princípio do prazer” e que se expressa pela Compulsão à Repetição. A repetição é uma característica própria da pulsão.
A Pulsão é um impulso inerente à vida orgânica no sentido de restaurar um estado anterior de coisas, isto é, no sentido de retornar ao estado inorgânico.
Freud vai afirmar que o caráter conservador da Pulsão é a resistência à mudança e a Repetição, do mesmo. O que ela repete é, pois, o mais arcaico, o estado inicial do qual o organismo se afastou por exigência de fatores externos: o inorgânico.
“Seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda vida é a morte.”.
O objetivo da Pulsão de Vida não é evitar que a morte ocorra, diz Freud – é o fato de que o organismo deseja morrer apenas de seu próprio modo.
Freud enfatiza que ao falar da Compulsão à Repetição, se refere a repetição, do mesmo, do idêntico, e que ela apresenta em alto grau um caráter pulsional. Enfatiza que essa Repetição é a própria natureza das Pulsões, “…uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer.”
A Repetição é o ato pelo qual a Pulsão é presentificada, mas ao mesmo tempo, o ato pelo qual ela permanece oculta.
Podemos concluir que a Repetição, revela e implica um saber; num outro lugar, aí onde eu não sou, isso sabe, e isso sabe alguma coisa.
A pulsão reprimida nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação completa que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação.
Assim, Lacan, vai apontar que a Wiederholungszwang na tradução deixa somente manifesto o caráter automático, repetitivo da sintaxis significante. E traduz o Wiederholen como automatismo de repetição, dividindo-o em dois:
AUTÔMATON: aqui o automatismo vai se apresentar na insistência do significante, como o retorno dos signos. Usando dos conceitos da lógica modal, vai nos dizer que apresenta o caráter do necessário – àquele que não cessa de insistir sempre da mesma maneira; colocando como exemplo o Sintoma.
TIQUÊ: encontro com o Real, àquele cujo caráter é o de – não cessa de não se inscrever. Existe um núcleo impossível de simbolizar-se, de reduzir, de digerir e que volta sempre. Este núcleo impossível que volta é o que leva Lacan a localizar a repetição em relação ao Real. O Real é o suporte do Fantasma, e o Fantasma protege o sujeito do Real.
O Fantasma é como o que esconde esse núcleo que está no meio e que motiva toda a repetição, é um encontro faltoso, encontro traumático, mal encontro.
A Repetição envolve algo que, por mais que se tente, não se consegue lembrar, porque está excluído da cadeia significante.
A Repetição envolve o “impossível de pensar” e o “impossível de dizer”.
Afinal, o que é esse Real a que Lacan se refere?
Garcia-Roza vai nos dizer que o Real se constitui em termos de diferencial acaso-ordem, um fundo de acaso o qual se constituem ordens emergentes. Ordem e Acaso são dois modos de Real contrários e complementares.
Por quê, o Real pertence a categoria do impossível?
Porque o Real é aquilo que não pode ser simbolizado totalmente na palavra ou na escrita e, por consequência, não cessa de não se escrever
– por ter sido instalado no lugar pelo próprio simbólico. Um Real subjacente a toda simbolização.
Bruce Fink (1997) vai dizer que:
“[…] não há encontro direto com o Real nem mesmo em sonho: a representação do Real é faltosa e o que encontramos no sonho é o seu lugar-tenente, seu representante.”
E a seguir se pergunta: O que é Representação (Vorstellung)?
“[…] é aquilo que é representado por significantes; não são os próprios significantes. Parece ser uma presença ou imagem real que jamais pode ser expressa em palavras. Impensável, inominável indizível.
Afirmando para concluir que: “[…] é a natureza não representacional do Real que acarreta a Repetição, exigindo que o sujeito volte ao lugar do objeto perdido, da satisfação perdida.”
2. Facticidade – em Heidegger, situação característica da existência humana que, lançada ao mundo, está submetida às injunções e necessidades dos fatos.
3. Claude Lefort – (1924/2010) historiador da filosofia e filósofo francês. Era politicamente ativo, sob a influência de seu tutor – Merleau-Ponty – cujas publicações póstumas foram realizadas por Lefort.
4. Quinet – Antonio. Um olhar a mais. Ver e ser visto na psicanálise. 2002 – Editora Jorge Zahar.
5. Ibi-Idem p.11
6. Função Háptica – (Quinet – p. 74/75) O háptico é o toque do olhar.
“O tocar é, por conseguinte, comandado pela função háptica do olho, ou melhor, é pelo fato da função háptica do olho existir (sua propriedade de tocar) que o empuxo-ao-toque pode advir, seja para sentir o contato do corpo do outro, seja para arrancar o véu que esconde sua nudez. A mão é serva do olhar, sendo guiada pela pulsão que parte do olho, zona erógena mais distante do outro desejado. Mas a pulsão o aproxima e o abraça, pois o háptico está sempre ativo na atividade ótica de ver.
O olhar com as mãos e apalpar com os olhos são as duas faces da mesma pulsão.
A função háptica do olho, diferentemente de sua função ótica, é dada pelo caráter libidinal da pulsão escópica invisível no campo visual, formado pela geometria, pela ótica e pelas imagens constituídas a partir da perspectiva do olho geometral. A primeira é comandada pelo Real pulsional do olhar como objeto a, enquanto a segunda, pela imagem especular e pelo simbólico da perspectiva.
O ótico não existe sem o háptico. O campo visual é, na verdade, “um espaço táctilo-ótico”, onde o háptico se presentifica como força sempre presente através da pressão (Drang) pulsional.
7. Roger Caillois – França 1913/1978 – intelectual francês cuja obra reunia crítica literária, sociologia e filosofia, concentrando-se em diversos assunto, como jogos, brincadeiras e no sagrado.
Interesse de Caillois no mimetismo, quando trabalhou com Bataille na faculdade de sociologia, eles trabalharam em dois ensaios sobre insetos na década de 30: La mante religieuse. De la biologie à la psychanalyse (1930) e Mimétisme et la psychasthénie légendaire (1934).
8. Diana e Actéon – Mitologia Grega – Actéon estava caçando com seus amigos e ao parar para descansar, sai vagando sem qualquer objetivo definido, e chega ao local onde a bela Diana banhava-se em companhia de suas ninfas. Diana ao ver-se sendo vista, transforma Actéon em um cervo.
9. Narcisismo – representa tanto uma etapa do desenvolvimento subjetivo como seu resultado.
Para Lacan, o infans – o bebê que não fala, que ainda não tem acesso a linguagem – não possui uma imagem unificada do seu corpo, ainda não estabelece bem a diferença entre si mesmo e o exterior, não tem a noção nem do eu, nem do objeto – isto é, ainda não possui uma identidade constituída, ainda não é um verdadeiro sujeito. Os primeiros investimentos pulsionais que então ocorrem, durante essa espécie de tempo zero, são, pois os do auto-erotismo, ´porque essa terminologia dá a entender exatamente a falta, de sujeito verdadeiro. O começo da estruturação subjetiva faz com que esse infans passe do registro da necessidade para o do desejo; o grito, de uma simples expressão de insatisfação, torna-se apelo, demanda; as noções de interior/exterior e, depois de eu/outro, de sujeito/objeto, passam a substituir a primeira e única discriminação, a de prazer/desprazer. A identidade do sujeito é constituída em função do olhar de reconhecimento do Outro. Nesse momento como descreve Lacan, naquilo que chama “fase do espelho”, o sujeito pode se identificar com a imagem global e recém-unificada de si próprio. Disso deriva o narcisismo primário, isto é, o investimento pulsional desejante, amoroso, que o sujeito realiza sobre si mesmo, ou mais exatamente, sobre sua imagem, sustentada pelo princípio do significante, com o qual se identifica. (Chemama – 1995 – p.139/140).
10. História de uma Neurose Infantil (1918) – Sigmund Freud – Obras completas – Imago 1996 – Volume XVII. – Sonho da Vespa – p.102
“Tive um sonho, disse ele, em que um homem arrancava as asas de uma Espe. – Espe? – perguntei, o que você quer dizer com isto? – O senhor sabe, aquele inseto com listras amarelas no corpo que dá uma picada. Isso deve ser uma alusão a Grusha, a pera de listras amarelas. Agora eu podia corrigi-lo: Você quer dizer uma Wespe (vespa). – Chama-se Wespe?
Na verdade, eu achava que o nome era Espe. (Como tantas outras pessoas, ele usava as suas dificuldades com a língua estrangeira como uma forma de encobrir os atos sintomáticos.) Mas Espe, então sou eu mesmo: S.P. (eram as iniciais de seu nome.) A Espe era, é claro, uma Wespe mutilada. O sonho dizia claramente que ele estava se vingando de Grusha, por causa da sua ameaça de castração.”
