A Vida e o Transitório: Morte e Tempo


Estudar a questão da Velhice nos trouxe até a questão do tempo. Para Goldfarb (1996), “…A vida se desenvolve entre o nascimento e a morte, este tempo vivido é o tempo subjetivo da formação do Eu.”

Assim desenvolvemos este percurso falando do sujeito que envelhece – àquele do consciente; e do sujeito que não envelhece – àquele do inconsciente, que embora não tenha os registros dessa cronologia do tempo, isto não significa que não esteja assujeitado a ela.

Para tanto, Le Poulichet (1996) vai falar do tempo identificante como o tempo instaurador das superfícies pulsionais. Quando abordamos no início a questão da formação do Eu, colocamos que este se desenvolve através de experiências que acontecem na relação com o Outro. Experiências que no só depois, vão se significar para o sujeito.

            “…Era preciso um acontecimento novo para que o acontecimento antigo ressoasse e tivesse acesso à presença. …No campo psicanalítico, essa temporalidade organiza não apenas a constituição do sintoma no só depois, pela via do recalque, mas também a historização do ´passado no presente.”

Mas, vamos abrir aqui os parênteses e perguntar, afinal:

 O que é o tempo?

Pergunta essa feita por Santo Agostinho em Confissões – Livro XI.

“…Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”

Assim fomos divagando a respeito do tempo, como Agostinho. Os cientistas e pensadores, vão dizer que a contagem do tempo é uma invenção humana. O tempo existe muito antes do ser humano, a questão é quanto tempo os humanos levaram para ter consciência do tempo e como começaram a medir o tempo.

O homem estava sujeito a natureza e a sua cronobiologia, Dia/Noite – marés, etc. Depois o homem passou a observar o céu e a posição do sol e das estrelas no céu permitiu ao homem se deparar com o Ano Solar.

Os primeiros instrumentos tecnológicos para medir o tempo vão aparecer nas civilizações gregas. Surge da necessidade política/social de medir o tempo durante o qual os oradores falavam, ou  seja,  permitir convencionar um tempo igual à todos.

O relógio mecânico, com a divisão de 24 horas – 60 minutos – 60 segundos, é originário da astronomia Babilônica, que tem mais de 3500 anos.

Os cientistas colocam que a invenção do relógio mecânico foi mais revolucionária que a pólvora – que mudou o movimento; que o papel e a imprensa que mudarão a memória; que a bussola – que mudou o espaço. O relógio mecânico mudou o tempo.

E essas sucessivas invenções humanas nos fazem deparar com a seguinte progressão:

  • 400 anos para a imprensa decolar,
  • 50 anos para o telefone fixo chegar ao público em geral,
  • 7 anos para o celular chegar a massa,
  • 3 anos para a difusão das redes sociais.

Hoje em um ano, vemos grandes mudanças na tecnologia.

A aceleração tecnológica é acompanhada pela aceleração da consciência e do pensamento. A internet faz o espaço desaparecer, nos levando a tornarmo-nos contemporâneos dos nossos contemporâneos.

Em relação aos anos que cada sujeito desfruta ao longo da sua vida, o homem evoluiu na seguinte progressão:

  • 1 milhão e meio de anos, para viver 50 anos,
  • 100 anos, para chegar aos 80 anos.

Ganhamos, na atualidade, 3 meses de expectativa de vida a cada ano.

Apesar disso, concordamos que o tempo é este instante – instantâneo, efêmero, fugaz e fugidio.

Para Einstein, essa distinção do tempo entre Passado – Futuro e Presente é uma ilusão. O presente é inapreensível, o tempo é um processo repetitivo, o movimento no espaço marca a passagem do tempo. Existem tempos, desdobramento de momentos.

Fechando nossos parênteses e voltando para a psicanálise, o tempo se dá no instante de ver, no tempo de compreender e no momento de concluir. O tempo pode ser indicado por verbos que designam uma ação, um estado, um fenômeno. 

Assim o tempo do $ujeito – do inconsciente, é o tempo da lógica das relações.

O fato do inconsciente ser atemporal, não significa que ele não abrigue nenhuma espécie de temporalidade, este tem uma temporalidade outra que é a temporalidade do só depois. Ou seja, um significante representa um sujeito para outro significante, porém isto se dá sempre no a posteriori.

Le Poulichet, vai falar do tempo, como tempo identificante e completa:

“…O conceito de tempo identificante pretenderia explicar aqui a dinâmica temporal, de que procede a própria experiência analítica, no ponto em que os anacronismos e as rasgaduras da trama do tempo acarretam a abertura das passagens entre os diferentes tempos que conjugam o corpo na linguagem.”

Ao pensar a questão do envelhecimento, nos deparamos com um sujeito que tem consciência da sua finitude e se depara com um trabalho psíquico de reconhecer-se na sua história e de se fazer história para continuar investindo libidinalmente, para que possa encontrar o sentido da sua história de vida passada e continuar se historicizando no presente.

            Para tanto, podemos concluir com Goldfarb (1996),

“…A experiência temporal é própria do ser humano, já que ele é o único ser vivo a se reconhecer finito e a organizar sua vida em torno desta realidade. Esta ideia do tempo se constrói sobre a ilusão de uma sucessão interminável de instantes. Neste constante fluir, cada acontecimento, cada experiência significativa deixa sua marca que guardará uma relação de causalidade com um acontecido antes e com um efeito posterior.”


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