O presente ensaio visa delinear o conceito de transferência e suas implicações na clínica psicanalítica.
Sabemos, que a teoria psicanalítica abarca conceitos tão imbricados e intrínsecos entre si, que se torna difícil compreendê-los isoladamente, faz-se necessário ter uma compreensão global da teoria para apreender-se conceitos isolados.
Miller, em a Transferência de Freud a Lacan, pontua: que a transferência é o modus operandi da psicanálise, a mola mestra da cura, seu motor terapêutico e o próprio princípio de seu poder. Colocando-nos assim o quão importante torna-se ao praticante da psicanálise o manejo da transferência.
Sendo isto que Freud vai descobrindo em sua práxis. Nos seus primeiros textos diz-nos que abandona a hipnose porque vai percebendo que sua prática engendra fenômenos que o levam a querer descobrir mais a respeito dos sintomas histéricos. Descobre então a divisão do psíquico, uma divisão em dois sistemas – o consciente e o inconsciente. E ainda, que na base da formação da neurose, existe uma questão sexual. O que o leva a formular a teoria da sedução, logo a seguir reformulada pela teoria da fantasia, o que o levou a elaboração da realidade psíquica baseada no inconsciente.
Freud vai sendo obrigado a transformar sua técnica em função também do fenômeno transferencial fazer-se presente. Pensando-o inicialmente enquanto um deslocamento metonímico, ou seja, a transposição para a pessoa do analista, de desejos, os quais foram relegados ao inconsciente.
A análise que faz do caso Dora, o faz, pensar a transferência como uma repetição, dizendo-se surpreendido pela transferência, pois não a interpretou para a paciente, o que a levou a repetir com Freud suas lembranças e fantasias ao invés de expô-las em análise.
Afirma ainda que a psicanálise não inventou a transferência apenas a revelou.
Em 1912 Freud vai publicar a Dinâmica da Transferência, onde pretendia fazer uma avaliação teórica deste fenômeno, investigando qual sua função no processo psicanalítico. Para tanto inicia pontuando que em função da ação combinada da disposição inata e das intervenções a que foi exposto nos primeiros anos de vida, leva cada indivíduo a criar para si uma forma específica de guiar-se na vida erótica. Evidenciando que para que isso ocorra, parte dos impulsos libidinais tornou-se inconsciente e parte chegou à consciência. Sendo que todas as relações que se estabelece na vida são determinadas por este fator, inclusive as que se estabelece com o analista. Freud vai salientar que estes eventos engendram a transferência. Dizendo que podemos distingui-la em sua forma positiva, divisível em transferência de sentimentos amistosos (conscientes) ou afetuosos (inconsciente) e a forma negativa que implica sentimentos hostis.
Assim, destaca que todas as relações emocionais, de simpatia, amizade, confiança e similares, acham-se ligadas à sexualidade e se desenvolveram a partir de desejos puramente sexuais. O que leva Freud a identificar a transferência como uma resistência ao tratamento analítico. Resistência esta que incita a repetição. Levando-o a salientar que a transferência é: “… apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido”. (Recordar, Repetir e Elaborar – Vol. XII – p. 166.)
Desta forma, o paciente entrega-se à compulsão a repetição, repete ao invés de recordar.
Mas repete o que?
Um conflito psíquico que foi afastado da consciência por uma força repressora. Em Além do Princípio do Prazer, Freud vai adiante e afirma que: “… as manifestações de uma compulsão à repetição (que descrevemos como ocorrendo nas primeiras atividades da vida mental infantil, bem como nos eventos do tratamento psicanalítico) apresentam em alto grau um caráter pulsional e, quando atuam em oposição ao princípio do prazer, dão a aparência de alguma força demoníaca em ação.”; ou seja evidencia o fato de que existe uma força no aparelho psíquico que busca sempre zerar o desequilíbrio, busca a homeostase do organismo, afirma, para isso que a repetição é em si mesma uma fonte de prazer. Sendo que o organismo busca essa satisfação primeira. Portanto repete por não ter representação e repete tendo representação. O que Freud faz então a partir de 1920 é opor uma nova dualidade pulsional: a pulsão de vida – Eros – e a pulsão de morte – Tânatos.
Falta-nos ainda questionar acerca do conflito psíquico, o que o gera?
O conflito psíquico ocorre quando um impulso libidinal não pode emergir ao consciente por estar em desacordo com este sistema, a força que o mantém inconsciente é a repressão, sendo esta considerada o mecanismo patógeno formador do sintoma e a resistência atua no sentido de manter o sintoma, sendo que ambas repressão e resistência são forças análogas que pertencem ao sistema consciente. Podemos então, traduzir o sintoma como o substituto de uma satisfação sexual que o paciente privou-se.
Portanto diz Freud, que a tarefa do analista consiste em tornar consciente aquilo que é inconsciente. Para tanto se deve primeiramente levantar as resistências e as repressões para que ao descobrir, comunicar e interpretar ao paciente esses conteúdos psíquicos inconscientes, com a suspensão das forças repressoras, esses conteúdos agora fazem parte do sistema consciente e podem receber a atenção da consciência, sendo assim assimilados e compreendidos, levando o sintoma a tornar-se anódino.
Assim percebemos que a transferência está intimamente ligada à neurose, pois o paciente é tomado pela transferência ao analista, sua neurose não é um bloco acabado é sim, um organismo vivo e em movimento, sendo que esta se transforma no que Freud vai chamar de neurose de transferência, pois o analista por ter acompanhado, em análise, esse processo desde a origem dos sintomas, encontra-se colocado em seu próprio centro, sendo que os sintomas tendem a abandonar seu significado original assumindo um novo sentido frente à transferência estabelecida.
O que vai levar Lacan a assinalar que a transferência é a atualização da realidade inconsciente, e que o analista é uma formação do inconsciente.
Para tanto vai formular que o inconsciente está estruturado como uma linguagem e é formado de cadeias significantes. Assim o analista vem ocupar um lugar na economia psíquica do analisante, ou seja, ele faz parte da economia psíquica como significante.
Lacan tem ainda como objetivo distinguir a transferência da sugestão, dizendo que esta faz parte do processo psicanalítico, porém enquanto o psicanalista utiliza-se dos próprios significantes do analisando, devolvendo assim ao analisante seu próprio discurso de forma invertida.
Ainda ao reler Freud, Lacan vai nos dizer que o analista ocupa na estrutura da situação analítica o lugar de sujeito suposto saber, colocando este lugar como o pivô da transferência.
Porém o que é o Sujeito Suposto Saber?
É o lugar dado ao analista pelo analisante, quando este supõe um saber no analista. Lacan vai apontar que isto é um engodo, porém necessário, pois é ele que vai suportar a transferência, por isso é o pivô desta, suportar no sentido de possibilitar ao analista o manejo da transferência. Possibilitando ao analisando falar, associar livremente, pois ali sua palavra é valorizada na experiência analítica, o que vai possibilitar a emergência do isso.
Miller, vai nos colocar que a análise deve permitir ir além do sintoma, ou seja, ir além do bem estar promovido pelo apaziguamento do sujeito com seu sintoma. Pois para Lacan é justamente nesse ponto onde se inicia a análise, que vai encaminhar o sujeito na travessia de sua fantasia, questão dificílima de se lidar em análise, pois a fantasia carece de significantes é algo do indizível, mas que transforma o gozo em prazer. Portanto vai nos dizer que se ao sintoma interpretamos, pois o mesmo é uma articulação de significantes, a fantasia se situa na falta significante. Então pontua que com a fantasia temos que ir ver o que está por trás, e completa que por trás não há nada, falta significantes, então se faz necessário construir a fantasia. Pois a fantasia é o tesouro do sujeito, sua propriedade mais íntima, encontra-se em desarmonia com a neurose do sujeito em função de contradizer seus valores morais. Portanto Miller nos alerta que o que esta no final da análise é o atravessamento da fantasia, que só ocorre num processo transpassado pela transferência, ou seja, no processo psicanalítico.
Texto elaborado em junho/2004, durante a Especialização em Psicologia Clínica Psicanálise.
