Ao tentar transformar o estudo até aqui empreendido neste ensaio, fui tomada de um sentimento de completo vazio. O que pude traduzir por uma certa angústia, perante o fato de expor minha compreensão a sua apreciação.
Pois, trata-se apenas de uma pequena imersão que ainda não possibilitou uma clara compreensão teórica (se é que isso é possível?) de conceitos tão imprescindíveis à teoria e a práxis psicanalítica e ao mesmo tempo tão imbricados e intrínsecos entre si, impossível compreendê-los isoladamente, há que se estudar o todo, para compreender-se, conceitos isolados.
Foi então que ao revisar todos os textos freudianos até então estudados deparai-me com uma citação que Freud faz do Makamen des Hariri de Rückert, o qual diz: “Ao que não podemos chegar voando, temos de chegar manquejando”; pontuando ainda na nota de número um de rodapé à página 75 do texto Além do Princípio de Prazer, que o dito livro diz-nos que não é pecado claudicar. Como fui brindada ao nascer com o nome Cláudia, me permitirei claudicar, ou seja, manquejar, mas cumprir com meu propósito de escrever um ensaio sobre a transferência.
Nos primeiros textos que Freud escreve vai dizer-nos que abandona a hipnose porque vai percebendo que sua práxis engendra fenômenos que o levam a querer descobrir mais a respeito dos sintomas histéricos. Descobre então a divisão do psíquico, uma divisão em dois sistemas – o consciente e o inconsciente. E ainda que na base da formação da neurose, existe uma questão sexual, que o leva a formular a teoria da sedução, logo a seguir reformulada pela da fantasia, o que o levou a elaboração da realidade psíquica baseada no inconsciente.
Freud vai sendo obrigado a transformar sua técnica em função também do fenômeno transferencial fazer-se presente. Pensando-o inicialmente enquanto um deslocamento metonímico, ou seja, a transposição para a pessoa do analista, de desejos, os quais foram relegados ao inconsciente.
A análise que faz do caso Dora leva-o a pensar a transferência como uma repetição, dizendo-se surpreendido pela transferência, pois não a interpretou para a paciente, o que a levou a repetir com Freud suas lembranças e fantasias ao invés de expô-las em análise.
Afirma ainda que a psicanálise não inventou a transferência apenas a revelou.
Em 1912 Freud vai publicar A Dinâmica da Transferência, pretendendo fazer uma avaliação teórica deste fenômeno e qual sua função no processo psicanalítico. Para tanto inicia pontuando que em função da ação combinada da disposição inata e das intervenções a que foi exposto nos primeiros anos de vida, cada indivíduo criou para si uma forma especifica de guiar-se na vida erótica. Evidenciando que para que isso ocorra, parte dos impulsos libidinais tornou-se inconsciente e parte chegou à consciência. Sendo que todas as relações que se estabelece na vida são determinadas por este fator, inclusive as que se estabelece com o analista. Freud vai salientar que estes eventos engendram a transferência. Dizendo que podemos distingui-la em sua forma positiva – divisível em transferência de sentimentos amistosos (consciente) ou afetuosos (inconsciente) e a forma negativa que implica sentimentos hostis.
Destacando que todas as relações emocionais de simpatia, amizade, confiança e similares, acham-se ligadas à sexualidade e se desenvolveram a partir de desejos puramente sexuais. O que leva Freud a identificar a transferência como uma resistência ao tratamento analítico. Resistência esta que incita a repetição. Levando-o a salientar que a transferência é: “… apenas um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido”. (Recordar, Repetir, Elaborar – Vol. XII – p. 166) Assim o paciente entrega-se à compulsão à repetição, repete ao invés de recordar.
Mas, repete o que?
Um conflito psíquico que foi afastado da consciência por uma força repressora, é o que nos diz Freud.
E o que gera um conflito psíquico?
O conflito psíquico ocorre quando um impulso libidinal não pode emergir ao consciente por estar em desacordo com este, a força que o mantém inconsciente é a repressão, sendo esta considerada o mecanismo patógeno formador do sintoma e a resistência atua no sentido de manter o sintoma, sendo que ambas, resistência e repressão, são a mesma força. Podemos então, traduzir o sintoma como o substituto de uma satisfação sexual que o paciente privou-se.
Portanto diz Freud, que a tarefa do analista consiste em tornar consciente aquilo que é inconsciente, Para tanto se deve primeiramente levantar as resistências e as repressões para que ao descobrir, comunicar e interpretar ao paciente seus conteúdos psíquicos inconscientes, com a suspensão das forças repressoras, esses conteúdos agora fazem parte do sistema consciente e podem receber a atenção da consciência, sendo assim assimilados e compreendidos, levando o sintoma a tornar-se anódino.
Todo esse processo ocorre envolto no fenômeno da transferência, que também esta intimamente ligada à própria neurose. A transferência ocorre desde o início do tratamento, é o que permite seu avanço e seu êxito. Desde que seja bem direcionada. A transferência pode ser vista como o motor da análise. Pois, ao analisar o conteúdo inconsciente, que o paciente, deixa aflorar em transferência na análise, leva-se o paciente a substituir a repetição por uma lembrança, podendo ai engendrar uma reelaboração psíquica.
Pode-se esclarecer o fato da transferência estar intimamente ligada à própria neurose, salientando que isto ocorre quando o paciente é tomado pela transferência ao analista, sua neurose que não é um bloco acabado e sim um organismo vivo e em movimento, transforma-se no que Freud vai chamar de neurose de transferência, pois o analista por ter acompanhado esse processo desde a origem dos sintomas, encontra-se colocado em seu próprio centro, sendo que os sintomas tendem a abandonar seu significado original assumindo um novo sentido frente à transferência estabelecida. O que vai permitir desatar o nó sintomal, que trava o sujeito, permitindo-lhe claudicar por outros rumos.
Texto apresentado na Jornada de Cartéis da Biblioteca Freudiana de Curitiba no ano de 2003
